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Agricultura orgãnica, uma questão de ComCiência - Parte 2 Dr. Ruy Alfredo de Bastos Freire Filho

A agricultura orgânica - um sistema destinado a produzir alimentos com danos mínimos aos ecossistemas, animais ou seres humanos - é frequentemente proposta como solução. No entanto, os críticos argumentam que a agricultura orgânica pode ter rendimentos mais baixos e, portanto, precisaria de mais terra para produzir a mesma quantidade de alimento que as fazendas convencionais, resultando em desmatamento e perda de biodiversidade mais disseminados e, portanto, minando os benefícios ambientais das práticas orgânicas.

Aqui, usamos uma metanálise abrangente para examinar o desempenho relativo do rendimento dos sistemas agrícolas orgânicos e convencionais em todo o mundo. Nossa análise dos dados disponíveis mostra que, em geral, os rendimentos orgânicos são tipicamente inferiores aos rendimentos convencionais.

Mas essas diferenças de rendimento são altamente contextuais, dependendo das características do sistema e do local, e variam de 5% a mais de rendimentos orgânicos (leguminosas alimentadas pela chuva e perenes em solos fracos ácidos e alcalinos fracos), 13% a mais baixos (quando as melhores práticas orgânicas são utilizados), com rendimentos 34% mais baixos (quando os sistemas convencional e orgânico são mais comparáveis).

Sob certas condições - isto é, com boas práticas de manejo, tipos específicos de culturas e condições de cultivo - os sistemas orgânicos podem, assim, quase igualar os rendimentos convencionais, enquanto em outros atualmente não podem.

Para estabelecer a agricultura orgânica como uma ferramenta importante na produção sustentável de alimentos, os fatores que limitam a produção orgânica precisam ser mais bem compreendidos, juntamente com avaliações dos muitos benefícios sociais, ambientais e econômicos dos sistemas de agricultura orgânica.

Outros referências na mesma direção, seriam a do Professor John Reganold da Washington State University e também Catherine Badgley e Ivette Perfeccto.

A crítica feita à produtividade da agricultura orgânica levantada pela autora se baseia no recente modelo de simulação sueco publicado pela Revista Nature.

Os autores entendem que o rendimento do modelo orgânico aumentaria a pressão por mais área agricultável, isto é mais desmatamento. A limitação central destas simulações é que se apoiam na coleta de dados disponíveis aos autores no momento em que elaboram os algoritmos.

Além do mais, a maior parte destes estudos são baseado em commodities, seus atuais rendimentos e fundamentalmente em monoculturas.

A agricultura industrial, estruturada em cadeias produtivas e mecanização em escala, se orienta na produção de commodities em propriedades especializadas em um ou no máximo dois cultivos.

Mas se daqui 40 anos nossa base alimentar não for mais sustentada pelos cerais que hoje dominam o mercado de commodities e sim por novas variedades mais produtivas e mais resistentes de plantas?

Os autores se basearam em uso do solo, mas se novas tecnologias incorporarem produção alimentar nas águas e mesmo em áreas desérticas? Simulações tendem a confundir a fotografia com o filme.

Ainda assim mesmo modelos atuais já podem indicar uma via. Inúmeros sistemas orgânicos, particularmente os asiáticos, criam complexos sistemas integrando espécies vegetais e animais, onde o rendimento unitário de cada cultura é inferior por unidade de área, mas em termos de produção geral, superam as monoculturas.

Alguns estudos mostram que estas integrações podem inclusive ser mais eficientes em termos de uso de energia e retornos econômicos. Mesmo na agricultura industrial modelos brasileiros de integração indicam caminhos de melhor uso do solo reduzindo pressões sobre reservas ambientais. Existem indícios de que a previsão malthusiana dos autores suecos pode não se consolidar.

Autores críticos da eficiência da agricultura orgânica partem do pressuposto, que ao contrário do que se observou ao longo do tempo com a agricultura convencional, a tecnologia da agricultura orgânica ficara estagnada nos atuais níveis produtivos. A conjetura não é despropositada uma vez que o modelo de financiamento de pesquisa e desenvolvimento de inovações orgânicas é proveniente de escassos recursos públicos, que competem com o intenso patrocínio do setor privado de grandes empresas controladoras do mercado de insumos, sementes e defensivos. Sendo uma atividade que aloca recursos em plano regional, os governos tendem a desconsiderar o método orgânico, já que gera menos tributos e impostos que gigantescos conglomerados agroindustriais com ramificações por todo território de um país. Daí vem distorção ainda maior, que via legislação e subvenções, adultera a igualdade de concorrência criando um viés favorável ao modelo agroindustrial. Mas politicas socioeconômicas não são necessariamente ciência. Um maior aporte de recursos para pesquisa e apoio institucional colocariam o modelo de agricultura sustentável no páreo.

A seguir a matéria segue com a crítica da a não adoção das biotecnologias, como a introdução de genes exógenos (transgenia) ou edição genética (CRISPR). O texto não aborda a soja transgênica, apropriadamente denominada roundup ready soyabean (apta a suportar o herbicida roundup-glifosato) uma planta modificada para suportar níveis mais elevados do herbicida glifosato, e reduzir o número de operações com o defensivo.

Tanto a semente como o herbicida eram produzidos pela mesma empresa, na ocasião Monsanto, atualmente Bayer. Venhamos que não se justifica um produtor orgânico cultivar uma planta que resista à um agrotóxico.

A soja roundup ready ilustra uma relação espúria entre semente e insumo que independentemente da orientação tecnológica do produtor impõe prudência. Produtos de altíssima produtividade requerem proporcional inversão de capital.

Sementes com altos royalties demandam pacotes tecnológicos caríssimos deixam produtores reféns de agentes financiadores e vulnerabilizam ainda mais a atividade agrícola.

As chamadas sementes melhoradas, por qualquer técnica, ao enfatizarem a produção de grãos (a chamada estratégia r) tem menor resistência às restrições nutricionais, hídricas e ataques de pragas em relação aos cultivares chamados crioulos, que são plantas geneticamente mais adaptadas às variações ambientais (chamada estratégia k).

O produtor orgânico busca um organismo melhor adaptado ao ambiente de cultura. Prefere portanto a produção local de sementes, adaptadas à sua propriedade e condições de cultivo.

A seleção da variedade a ser cultivada é fruto de sua experiência e não de apelos comerciais. Sua aversão ao transgênico é técnica de um lado, e atento ao princípio da precaução do outro. Os efeitos imprevisíveis da tecnologia do transgênico aparecem até no artigo chinês mencionado pela matéria do IQC:

Segundo, a expansão em larga escala do algodão Bt na China desempenhou um papel crítico na regulação da lagarta do algodão. No entanto, a redução associada no uso de inseticida contra a lagarta do algodão também teve efeitos em outras pragas do algodão, como o pulgão do algodão e os insetos miridae. Essa ligação entre diferentes espécies de pragas e os efeitos indesejados das práticas de manejo precisam ser levados em consideração ao elaborar políticas agrícolas e métodos de manejo de insetos.

Pesquisas apontam a tecnologia transgênica do algodão Bt com o crescimento da população de pragas agrícolas. Trocando em miúdos, reduzir a aplicação de inseticidas contra a lagarta não impediu que outras pragas danificassem a lavoura, requerendo novamente um aumento nos uso de defensivos. O mesmo artigo adverte sobre o declinio da efetividade do algodão transgênico no decorrer dos anos.

O milho Bt apresentou problemas em lavouras brasileiras. No Mato Grosso produtores tiveram que recorrer ao protocolo de milhos convencionais com o uso de inseticidas para salvar a lavoura Bt. Outro problema observado pela EMBRAPA foi verificar que a proteína Bt pode ser transferida à próxima geração de lagartas, gerando resistência à toxina transgênica em sua descendência.

A alardeada panacéia dos transgênicos parece não durar mais do que uma década. Entretanto é tempo suficiente para que as empresas cobrem royalties antes que suas patentes caduquem. O desenvolvimento de resistência natural de pragas (processo previsto por Alexander Flemming descobridor da penicilina) criam um processo natural de obsolescência programada destas tecnologias. Em suma é uma tecnologia mais eficiente sob o ponto de vista comercial do que científico.

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