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Agricultura orgãnica, uma questão de ComCiência Dr. Ruy Alfredo de Bastos Freire Filho

Salvaguardar a sociedade do charlatanismo e da pseudociência é uma atividade meritória. Mas para proteger a ciência, é preciso ser fiel aos seus métodos.

O fenômeno das fake news é um exemplo alarmante de como este novo recurso tecnológico, a internet, pode impactar a sociedade. Neste ambiente, a desinformação que venha de alguma forma ratificada por uma aura científica é ainda mais nociva.

Neste cenário mecanismos de vigilância que visem reduzir as desinformações, para neutralizar seus efeitos deletérios, são mais que bem-vindos.

O meio acadêmico, calejado há décadas pelo risco de informações desonestas, tem seu próprio protocolo para evitar os danos causados por comunicações fraudulentas.

Os periódicos científicos submetem todos os artigos a uma revisão de pares (cientistas especializados no tema e que analisam material, métodos e conclusões).

Somente após aprovação destes o trabalho pode ser publicado. Ainda assim, mesmo publicações rigorosas como o The Lancet eventualmente deixam passar informações equivocadas e que podem causar grandes danos. Nestes casos a própria publicação vêm à público se retratar.

A denominada pseudociência, conjunto de crenças ou teorias que se julgam científicas, mas não seguem os rigorosos métodos científicos, conta também com vigilantes, muitos com formação acadêmica, que se dedicam em combatê-la.

A bióloga Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência que tem se esforçado para reproduzir esta atividade no Brasil.

Sua instituição tem como missão apontar e corrigir a falsificação e a distorção do conhecimento científico na arena pública, promover a educação científica e apoiar o uso de evidências na formulação de políticas públicas. Em artigo seu recente, "O mito da superioridade dos orgânicos", a biologa colocou sua lupa sobre sobre a denominada agricultura orgânica.

Ao abrir sua análise a matéria usa a definição de produção agropecuária orgânica lavrada pela Lei 10.831/2003. A definição legal da atividade é propositadamente difusa, uma vez que quer dar guarida à inúmeros sistemas de produção agropecuária que se abrigam debaixo dos princípios de sustentabilidade; mas sob o ponto de vista da análise científica que requer o cotejamento de materiais e métodos ela é pouco elucidativa. O que talvez tenha levado a autora aos inúmeros equívocos em sua matéria sob o tema.

De início ao discorrer sobre os perigos dos uso do sulfato de cobre na agricultura orgânica, o artigo omite a informação de que essa substância também se faz presente na atividade agropecuária convencional. Fonte barata de cobre, micronutriente essencial tanto em plantas como animais, possui vários usos agrícolas, sendo componente de fertilizantes, rações, medicamentos veterinários. E até de fármacos humanos. Nada que indique a propalada toxicidade elevada deste sal. E que pelo visto, não vai ser evitando produtos orgânicos que vamos nos livrar dele. No entanto, a conclusão da matéria é categórica:

Assim, já vemos que os orgânicos podem conter pesticidas mais tóxicos e prejudiciais ao meio-ambiente do que os tradicionais.

Cientificamente, não faz sentido afirmar que um produto é mais tóxico e prejudicial se não é feita uma análise comparativa; e sequer mencionar qual fungicida, usado pela agricultura convencional seria mais seguro e eficiente. A literatura científica aponta que fungicidas usados nos sistemas convencionais não são seguros.

A partir daí o artigo passa a questionar a tese de ser o alimento orgânico é mais saúdavel. Foi infeliz ao escolher o estudo para sustentar suas asserções. Paradoxalmente, a citada meta-análise citada de Smith-Spangler et al. (2012) contraria a tese da autora quando apresenta suas conclusões já no sumário. Senão vejamos:

Todas as estimativas de diferenças nos níveis de nutrientes e contaminantes nos alimentos foram altamente heterogêneas, exceto a estimativa de fósforo; os níveis de fósforo foram significativamente maiores do que nos produtos convencionais, embora essa diferença não seja clinicamente significativa.

O risco de contaminação com resíduos de pesticidas detectáveis foi menor entre os produtos orgânicos do que os convencionais (diferença de risco, 30% [IC, -37% a -23%]), mas as diferenças no risco de exceder os limites máximos permitidos eram pequenas.

O risco de contaminação por Escherichia coli não diferiu entre os produtos orgânicos e os convencionais. A contaminação bacteriana de frango e porco no varejo era comum, mas não relacionada ao método de cultivo. No entanto, o risco de isolar bactérias resistentes a 3 ou mais antibióticos foi maior no convencional do que no frango e porco orgânicos (diferença de risco, 33% [IC, 21% a 45%]).

Conclusão: A literatura publicada carece de fortes evidências de que os alimentos orgânicos sejam significativamente mais nutritivos que os convencionais. O consumo de alimentos orgânicos pode reduzir a exposição a resíduos de pesticidas e bactérias resistentes a antibióticos.

De onde inferir que o sistema orgânico não trouxe benefícios à saúde? E não apenas com o menor risco de bactérias resistentes, como admite a autora, mas na menor exposição de pesticidas, e ainda um maior aporte de fósforo na dieta.

Recorre ainda neste item à uma página da organização PETA, uma inusitada fonte para comunicações científicas, que sugere que o não uso de antibióticos prejudica a terapia de vacas com mastite, causando sofrimento à elas.

Com isto a autora leva o público à deduzir que mastites só podem ser tratadas com antibióticos, e que outras terapêuticas assim como medidas profiláticas e de manejo, adotadas na realidade em qualquer sistema de produção, não evitassem o problema.

O modelo orgânico não permite o uso protocolar de antibióticos, como em rações por exemplo, mas admite, em casos extremos que o animal seja tratado e isolado após usos destes medicamentos.

Ao alegar a que o uso de esterco na agricultura orgânica aumenta o risco de contaminação, de novo omite que nem sistemas de cultivo hidropônico, isto é, sem esterco algum, estão livres de contaminantes, inclusive de cepas letais da E.coli.

Aliás, estudos feitos dentro da instituição à qual a autora é ligada demonstram que a crença de que a verdura orgânica é mais contaminada por patógenos que a proveniente de sistemas convencionais é inconsistente. As normas dos orgânicos impõem um tempo de compostagem superior à 120 dias antes da aplicação do esterco, minimizando os riscos de um surto patogênico.

Ato contínuo o texto profere:

O terceiro argumento para o uso de orgânicos seria de que são melhores para o ambiente. Isso também é falso. Como a modalidade proíbe defensivos sintéticos e produtos geneticamente modificados, o rendimento – unidades de produto por unidade de área – é menor.

Agricultura orgânica requer mais terra, mais água e mais intervenções mecânicas para manejo de pragas, como aragem da terra para retirar ervas daninhas, por exemplo. Isso aumenta o uso de combustível fóssil, contribuindo para a emissão de gases de efeito estufa. A aragem também prejudica a microbiota do solo, além de matar insetos e pequenos animais.

Parte do artigo publicado no site Revista Questão de Ciência, que faz parte do IQC Instituto Questão de Ciência.

Cientificamente falando, quais investigações subsidiam esta afirmação?

A agricultura industrial dispensa intervenções mecânicas, aragens, usa menos combustível fóssil?

Sistemas orgânicos como os de agrofloresta, permacultura entre outros se encaixam na afirmação acima?

Esta bateria de suposições aleatórias não são bom exemplo de rigor científico. E o uso de fertilizantes químicos da agricultura industrial não entra no quadro comparativo?

Para sustentar sua opinião apenas dois estudos são citados. O bom debate seria a inclusão de outras pesquisas que não descartam o sistema orgânico como base da sustentação alimentar do planeta. Uma boa referência no tema vem da Revista Nature, de autoria de Verena Seufert et al.,(2012) que traz em sua conclusão:

Comentário: A bióloga Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, recentemente publicou um artigo, "O mito da superioridade dos orgânicos" que, como explicita o título, põe em xeque as vantagens da agricultura orgânica frente à agricultura convencional.

O Instituto presidido pela autora tem como missão apontar e corrigir a falsificação e a distorção do conhecimento científico na arena pública, promover a educação científica e apoiar o uso de evidências na formulação de políticas públicas.

No entanto, o referido artigo convenientemente indica apenas as referências que corroboram a hipótese da autora, sem demonstrar a equanimidade requerida a uma boa análise metodológica. No presente artigo, pretendemos levantar algumas questões que foram negligenciadas.

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