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Como alimentar o mundo - Mark Bittman ( Em vez de indagar quanto alimento é produzido, melhor seria perguntar como ele é produzido.)
25/11/2013 20:22
Como alimentar o mundo - Mark Bittman ( Em vez de indagar quanto alimento é produzido, melhor seria perguntar como ele é produzido.)
Mark Bitman (foto original de www.catracalivre.com.br)
                 (materia original do Estadao 22/10/13)

....."Se quisermos garantir que os pobres possam comer e fazer um trabalho melhor do que o apresentado pela agricultura “moderna” na preservação da saúde e da produtividade do planeta, precisamos parar de supor que o modelo industrial de produção de alimentos e a dieta que o acompanha, responsável por numerosas doenças, seja desejável e inevitável. Tenho dúzias de amigos que dizem coisas do tipo, “Detesto a grande indústria agropecuária, mas como poderemos alimentar os pobres?”

The New York Times - Este mês marca o aniversário de cinquenta anos do discurso do presidente americano John F. Kennedy falando no fim da fome mundial, mas a situação continua ruim. Quase um bilhão de pessoas enfrentam a fome, número que se manteve mais ou menos estável por mais de cinquenta anos, apesar de ter recuado enquanto porcentagem da população total.

“Alimentar o mundo” poderia perfeitamente ser o slogan da grande indústria agropecuária, um eufemismo para “Vamos aumentar as vendas”, como se a produção de mais carros garantisse que todos tivessem um automóvel. Se as coisas funcionassem dessa maneira, os Estados Unidos não registrariam a maior incidência de fome entre os países desenvolvidos, apresentando um quadro mais próximo da Indonésia do que da Grã-Bretanha.

Faz tempo que o mundo produz calorias suficientes, cerca de 2.700 por dia por pessoa, mais do que o bastante para suprir as necessidades de uma população de 9 bilhões, projetada pelas Nações Unidas para 2050 - um aumento em relação aos 7 bilhões atuais. Há pessoas passando fome porque nem todas essas calorias são destinadas ao consumo humano (um terço serve para alimentar animais, quase 5% são usados na produção de biocombustíveis, e até um terço é desperdiçado ao longo da cadeia alimentar), e não por causa da falta de comida.

O sistema atual é insustentável tanto do ponto de vista econômico quanto do ambiental, pois depende de combustíveis fósseis e, rotineiramente, resulta em danos ambientais. Seu funcionamento é orientado para permitir que a metade do planeta com dinheiro coma bem, enquanto os demais procuram uma maneira de se alimentar gastando o mínimo possível. Paradoxalmente, conforme um número cada vez maior de pessoas pode arcar com o custo de se alimentar bem, a comida vai se tornar mais escassa para os pobres, pois a demanda por produtos animais vai aumentar vertiginosamente, exigindo para a sua produção mais recursos como grãos. Calcula-se que um aumento inferior a 30% na população mundial dobre a demanda por produtos animais. Mas não existe terra, água nem fertilizante - que dirá financiamento para o sistema de saúde - para que o mundo inteiro consuma carne nos níveis ocidentais.

Se quisermos garantir que os pobres possam comer e fazer um trabalho melhor do que o apresentado pela agricultura “moderna” na preservação da saúde e da produtividade do planeta, precisamos parar de supor que o modelo industrial de produção de alimentos e a dieta que o acompanha, responsável por numerosas doenças, seja desejável e inevitável. Tenho dúzias de amigos que dizem coisas do tipo, “Detesto a grande indústria agropecuária, mas como poderemos alimentar os pobres?”

É hora de admitir que há dois sistemas alimentares: o industrial e aquele dos pequenos proprietários de terras, ou camponeses, se preferir. Além de ter vindo para ficar, o sistema camponês é de fato mais eficiente do que o industrial. De acordo com o ETC Group, organização de pesquisa em agricultura com sede em Ottawa, Ontario, a cadeia alimentar industrial consome 70% dos recursos agrícolas para produzir 30% do alimento mundial, enquanto aquilo que o ETC chama de “rede alimentar camponesa” produz os 70% restantes usando apenas 30% dos recursos.

É verdade que variedades de alto rendimento de qualquer uma das principais espécies de monocultura comercial vão proporcionar uma produtividade por hectare superior à de variedades dessa mesma espécie cultivadas por camponeses. Mas, ao diversificar o cultivo, misturar plantas e animais e plantar árvores - que oferecem sombra, abrigo para os pássaros, fertilidade por meio da reciclagem de nutrientes e outros benefícios, além dos frutos -, os pequenos proprietários podem produzir mais alimento (e mais tipos de alimento). Vão usar menos recursos e arcar com um custo mais baixo no transporte (o que significa menos emissões de carbono), ao mesmo tempo oferecendo mais segurança alimentar, conservando a biodiversidade e até compreendendo melhor os efeitos da mudança climática. (Além disso, já foi demonstrado que suas técnicas são eficazes em propriedades rurais de grande porte, mesmo no Cinturão do Milho, nos EUA.) Tudo isso sem contar com o nível de subsídios e outras formas de incentivo que a agricultura industrial recebeu nos últimos cinquenta anos, e apesar dos esforços da grande indústria agropecuária para se tornar ainda mais dominante.

Na verdade, se definirmos “produtividade” não em termos de quilos por hectare, e sim do número de pessoas alimentadas pela produção dessa mesma área, veremos que os EUA estão atrás de China e Índia (e também da média global), num patamar mais ou menos equivalente ao de Bangladesh, pois boa parte daquilo que é produzido é destinado aos animais e biocombustíveis. (Independentemente de como o alimento seja produzido, transportado e consumido, o desperdício continua atingindo cerca de um terço da produção.) Assim, como diz a diretora de pesquisas do ETC, Kathy Jo Wetter, “Seria loucura considerar que o paradigma atual de produção, com base no agronegócio multinacional, seja o único ponto de partida crível para se chegar à segurança alimentar”. Isto é especialmente verdadeiro levando-se em consideração todos os aspectos negativos.

Nas palavras de Raj Patel, bolsista do Instituto para Políticas Alimentares e de Desenvolvimento, “As regras do jogo prejudicam os camponeses há séculos e, ainda assim, conseguiram alimentar mais pessoas do que a agricultura industrial. Com o tipo certo de treinamento agroecológico e a liberdade de moldar o sistema alimentar em termos justos, podemos apostar que eles serão capazes de alimentar a si mesmos e aos outros”.
Obviamente, nem todos os pobres conseguem se alimentar direito, pois carecem de recursos essenciais: terra, água, energia e nutrientes. Com frequência, isso é resultado de ditaduras cruéis (Coreia do Norte) ou guerras, deslocamentos forçados e caos (Chifre da África, Haiti e muitos outros lugares), ou da seca e outras calamidades. Mas isso pode ser também um resultado direto e intencional da especulação envolvendo terras e colheitas e da apropriação de terras e recursos hídricos, impossibilitando que os camponeses permaneçam em seus vilarejos. (Os governos de muitos países em desenvolvimento também podem atuar como agentes da agricultura industrial, enxergando o cultivo dos camponeses como “ineficiente”.)

O resultado é uma fuga forçada rumo às cidades, onde os camponeses se convertem em trabalhadores mal remunerados, entrando no mercado por alimentos (cada vez mais produzidos em massa) e alimentando-se pior. Ao chegar a esse ponto deixam de ser “camponeses”, assemelhando-se mais aos pobres trabalhadores dos EUA que, igualmente, veem-se muitas vezes impedidos de alimentar-se corretamente, mas não a ponto de sofrerem de fome aguda. Trata-se de uma fórmula que produz fome e obesidade: primeiro é removida a capacidade de produzir comida, em seguida a capacidade de pagar pela comida, substituindo-a por uma única alternativa: o alimento ruim.
Podemos começar pondo de lado o foco estreito no rendimento. Como diz Jonathan Foley, diretor do Instituto do Meio Ambiente da Universidade de Minnesota, “A lógica da produção de alimentos não pode reproduzir a da produção de petróleo”. O recuo parece ocorrer naturalmente, conforme a qualidade da terra se deteriora e os produtos químicos se tornam menos eficazes, apesar dos “avanços” de alta tecnologia como as variedades geneticamente modificadas. Em vez de indagar quanto alimento é produzido, melhor seria perguntar como ele é produzido.

Precisamos também investir  mais na pesquisa dos benefícios da agricultura tradicional - que, por oferecer ganhos limitados ao lucro das multinacionais e ao comércio internacional, nunca recebeu um investimento comparável àquele destinado à agricultura corporativa.
Em vez disso, o dinheiro e a energia (de todos os tipos) destinados à ampliação da oferta não podem ser superestimados. Se recursos idênticos fossem investidos na redução do desperdício, no questionamento do valor de produtos animais, na redução do consumo excessivo (um problema de saúde), na promoção ativa de alternativas mais sãs e de menor consumo energético, garantindo aos camponeses o direito de cultivar suas propriedades tradicionais, poderemos reduzir a contribuição da agricultura para a emissão de gases-estufa, para as doenças crônicas e para o esgotamento dos recursos energéticos, além de garantir que as pessoas possam se alimentar.