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Novos dados sobre nutrição e o papel dos produtores na Lei da Alimentação Escolar Orgânica
22/07/2015 14:41
Novos dados sobre nutrição e o papel dos produtores na Lei da Alimentação Escolar Orgânica



O primeiro debate sobre os impactos da Lei da Alimentação Escolar Orgânica do município de São Paulo, realizado na Bio Brazil Fair, em junho deste ano, revelou informações inéditas para a saúde pública e o potencial de produtividade dos alimentos orgânicos no país. O evento realizado pela Plataforma de Apoio à Agricultura Orgânica de São Paulo, da qual a AAO - Associação de Agricultura Orgânica participa, trouxe especialistas para apontar o impacto da lei na educação, saúde, economia e meio ambiente.


O consumo de alimentos orgânicos no período de gestação e nos primeiros dois anos de vida mostra-se determinante na formação e desenvolvimento físico, mental e emocional da criança. A nutricionista clínica Denise Carreiro enfatizou o quanto o consumo de verduras, frutas e legumes fornece as substâncias necessárias à formação do sistema nervoso central e do sistema imunológico e, no caso dos orgânicos, com ganho nutricional comprovado: calcula-se que a alimentação convencional possua até 40% menos vitaminas que os produtos sem aditivos químicos.


“Sabe-se que o consumo de alimentos naturais é responsável pelas substâncias que criam o sistema de defesa e, ao mesmo tempo, houve aumento de mais de 100% de doenças crônicas em crianças entre 6 e 8 anos. É necessário começarmos a comer ‘comida de verdade’ no lugar dos produtos processados”, destacou Denise.


Se a FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação preconiza a ingestão de no mínimo 400 gramas de verduras, frutas e legumes por dia, a população brasileira consome menos de 1/3 desse número. E só o consumo de refrigerantes e biscoitos cresceu 400% nos últimos anos no país. Nesse sentido, a alimentação escolar orgânica poderá ser a indutora de novos hábitos alimentares, determinantes da própria expectativa de vida da população. Denise também revelou o alarmante dado da Organização Mundial da Saúde de que houve aumento de até 600% nos casos de doenças crônicas não transmissíveis no mundo, associadas à alimentação inadequada.


Aumento de produtividade


O produtor orgânico do Sítio Catavento, Fernando Ataliba, lembrou que a agricultura orgânica é a grande alternativa para melhoria do ambiente natural. “Pois necessita do solo vivo, com atividade biológica intensa para os cultivos de qualidade. O solo rico também armazena água, ao contrário do sistema agrícola convencional que interrompe os ciclos de absorção da água devido ao esgotamento dos solos”, disse.


Segundo ele, a agricultura orgânica é mais produtiva conforme utiliza técnicas recuperadoras de solos degradados que se mantém cada dia mais saudáveis. “Já a agricultura convencional começa com alta produtividade e aos poucos leva à perda de solos, essa conta precisa ser feita no final”, destacou Ataliba.


A viabilidade de se cultivar o alimento orgânico em escala foi comprovada pelo depoimento de Nelson Krupinski, da COOTAP - Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da Região de Porto Alegre, que hoje fornece arroz orgânico para milhares de refeições escolares, a exemplo das 15 toneladas de arroz fornecidas para a alimentação escolar orgânica de São Paulo só no primeiro semestre de 2015. “Ao longo dos anos, conseguimos melhorar, dando condição de sobrevivência no campo e preços bons para quem consome. O que mostra ser possível alimentar milhares de pessoas com comida saudável e um manejo adequado do meio ambiente”, destacou Krupinski.


A COOTAP possui 522 famílias produzindo arroz orgânico, 398 famílias com hortas agroecológicas e 170 vendendo leite para a alimentação escolar. Os resultados não são só econômicos, mas sociais e ambientais. Só no cultivo de arroz orgânico foram identificados mais de 1,5 mil animais, incluindo insetos, em oposição a 80 animais no cultivo convencional, segundo pesquisa relatada por Krupinski.


Hortas escolares


A introdução da alimentação orgânica nas escolas demanda um amplo trabalho de educação alimentar, incluindo a aproximação com os currículos e a prática cotidiana nas unidades de ensino. “É preciso tornar as escolas vivas, verdes e mais humanizadas, melhorando o ambiente para a mudança de hábitos não só dos alunos, mas de pais e educadores”, enfatizou a pedagoga Monica Pilz Borba.


Um dos desafios atuais, por exemplo, é inserir um programa de hortas pedagógicas no contexto do grupo que trabalha na regulamentação da lei da alimentação escolar orgânica em São Paulo. São cerca de 2.215 instituições de ensino, das quais 939 não possuem hortas e 768 já tiveram esses espaços, hoje desativados. “O foco é educativo e não produtivos, ensinando sobre as relações naturais e despertando para experimentar os alimentos que se cultiva”, concluiu.


Encontro de produtores


A aproximação entre agricultores orgânicos, prefeitura e agentes envolvidos na alimentação escolar ampliou-se no 1º Encontro de Produtores Orgânicos para o abastecimento da Alimentação Escolar, com realização pelo Departamento de Alimentação Escolar do Município de São Paulo, em parceria com a AAO – Associação de Agricultura Orgânica, Instituto Kairós e Instituto 5 Elementos, também durante a Bio Brazil Fair.


A assessora do Departamento de Alimentação Escolar da Secretaria de Educação, Danuta Chmielewska, enfatizou a possibilidade de se casar a oferta de orgânicos com a alimentação escolar atual, incorporando os produtos da agroecologia no cardápio. A partir de 2012, o DAE realiza sua primeira compra pública da agricultura familiar, que representaram 1% dos recursos repassados pela Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE). Em 2013, esse número subiu para 7%, incluindo arroz e sucos integrais, e em 2014 o repasse foi de 17%, com a compra de feijão e arroz orgânico, sucos e banana de comunidades do Vale do Ribeira – novidade por ser o primeiro produto in natura, cuja logística mostra-se mais complexa.


“E 2015 já contou com chamadas para alimentos inéditos, como a carne suína, o iogurte ou a farinha de mandioca, sempre da agricultura familiar. Agora do desafio é fazer com que o alimento na escola represente um tema também na sala de aula, influindo na educação das crianças”, reforçou Danuta.


O formato de chamada pública atual, que também será usado na compra pela Lei da Alimentação Escolar Orgânica, não tem o critério preço como definidor e sim a localização dos agricultores, primeiramente no município e depois no Estado, a origem de assentamentos e comunidades tradicionais, a produção orgânica e o número de agricultores envolvidos na cooperativa. Danuta coloca ainda que as características do produto, a quantidade e a forma de entrega, são analisados no contrato de compra.

Categoria(s): Agricultura Orgânica