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Devemos usar agrotóxicos banidos no exterior?
28/04/2016 18:07
Devemos usar agrotóxicos banidos no exterior?
Fonte: Revista Epoca
"Defensivos barateia a comida, mas aumenta os custos da saúde", diz o senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), autor do projeto de lei pela proibição de agrotóxicos.

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Em parte, por ser o segundo maior produtor de grãos. Em parte, por ter clima tropical, mais favorável à proliferação de pragas. Em parte, por ter uma legislação permissiva. Mais da metade dos defensivos agrícolas aplicados no país está proibida ou na Europa ou nos Estados Unidos. Ao permitir agrotóxicos banidos no exterior, como o carbofurano, o Brasil consegue produzir comida mais barata e gerar mais empregos. Ao mesmo tempo, impõe um risco maior à saúde. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca) entre os efeitos associados à exposição crônica a ingredientes ativos de agrotóxicos estão infertilidade, abortos e cânceres. No Congresso, o senadorAntônio Carlos Valadares (PSB-SE) pede a proibição no Brasil de agrotóxicos proibidos no exterior, no Projeto de Lei no 541/2015. “Como você vai plantar 5 milhões de hectares no Rio Grande do Sul capinando à mão, sem usar agroquímicos?", diz o deputado ruralistaLuis Carlos Heinze (PP-RS), contrário à proibição. "É humanamente impossível". 

ÉPOCA – Por que não devemos usar agrotóxicos banidos no exterior?
Antônio Carlos Valadares – 
O ideal seria adotar no Brasil as proibições válidas nos Estados Unidos e na União Europeia. Desde 2009, somos o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Quero colocar em debate essa questão, mas nem todos querem. Para relator do meu projeto, indicaram o senador Blairo Maggi. Você sabe que ele tem posição definida. Pedi que a gente ao menos ouvisse os interessados, da parte do agronegócio e da parte da saúde.

ÉPOCA – O que dizem os órgãos de Saúde?
Valadares – 
No ano passado, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) publicou um documento chamado “Posicionamento público a respeito do uso de agrotóxicos”. Lá, eles dizem que a exposição crônica a agrotóxicos está ligada a infertilidade, impotência, abortos, malformações, neurotoxicidade, desregulação hormonal, efeitos sobre o sistema imune e câncer. Eu nasci em Simão Dias, uma cidade agrícola no Sergipe. Vi várias pessoas morrer de câncer.

ÉPOCA – Como proibir agrotóxicos, se 70% da produção agrícola brasileira depende deles?
Valadares – 
Devemos privilegiar a agricultura orgânica. Em muitos lugares, ela está invadindo os campos. Aqui, o poder econômico de multinacionais, mais a necessidade de produção agrícola intensiva do agronegócio, nos contrapõe. Um senador na comissão disse que eu quero parar o agronegócio. Não é essa minha intenção. O agronegócio impulsiona a economia, gera empregos. Reconheço que, se não fosse a agricultura, a situação econômica do país seria muito pior. Defendo a agricultura, mas defendo também o ser humano. Eu não sou radical. Acho que a transformação precisa de um prazo para adaptação. Quero dar um prazo para o agronegócio resolver essa questão. Da substituição gradativa à eliminação total. Nosso agronegócio é muito bem-sucedido na parte da produtividade. Eliminar venenos deveria ser prioridade também. Não será de um dia para outro, mas precisamos começar.

ÉPOCA – A agricultura orgânica produz alimentos mais saudáveis, a um custo maior. Ao encarecer, eles se tornam inacessíveis para que parcela da população?
Valadares – 
O mundo precisa se alimentar, mesmo que correndo o perigo de consumir alguma quantidade de veneno. Mas, no Brasil, o veneno está na mesa. Isso traz outros custos. Quanto perdemos quando tanta gente morre? Gastamos tanto para tratar o câncer, quando o melhor seria gastar para ele nem acontecer.

ÉPOCA – A Anvisa é um foro mais adequado que o Congresso para proibir substâncias?
Valadares – 
As reuniões de uma casa legislativa são transmitidas pela TV. Atraem atenções. Quem sabe, pode haver uma contenção voluntária do uso de algum agrotóxico. Quem sabe,  a Anvisa pode se sentir pressionada a proibir. O agronegócio é responsável por tanta arrecadação, tantos empregos. A Anvisa é pequena, diante de tantos interesses. Como representante do povo, o Senado pode propor a proibição sem medos. Tem o dever de fazer isso.

Fonte: Revista Época