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O PÃO NOSSO, CADA VEZ MAIS ENVENENADO
23/05/2016 14:35
O PÃO NOSSO, CADA VEZ MAIS ENVENENADO


         Nos cinturões do trigo norte-americano e canadense, assim como na Argentina e no Brasil, uma técnica está sendo praticada por agricultores, mais preocupados que estão com o lucro que obtêm com a nova tecnologia do que com  a saúde das pessoas e com o ambiente. O clima mais úmido de grande parte dessas regiões dificulta a uniformidade da secagem natural dos grãos para a colheita, retardando a operação e obrigando ao maior uso das colheitadeiras. Agora não mais, pois de uma a duas semanas antes da colheita mata-se uniformemente toda a cultura com o herbicida glifosato (round up), permitindo colheita única, antecipada de duas semanas, gerando maior lucro e menos problemas com ervas invasoras, que atrapalham o trabalho das máquinas. Tal herbicida, da Monsanto (que de santo nada tem) é seguramente o que mais se usa em todo o mundo, mormente nas culturas transgênicas, melhoradas para o uso exclusivo desse agrotóxico.

     Se as colheitas e os lucros são maiores também assim é a contaminação dos alimentos e do ambiente, as águas de superfície e as águas profundas principalmente; assim é que em regiões de muitos países não mais se pode utilizar água, tal os resíduos de glifosato que contêm. Basta lembrar que apenas um por cento dos venenos que se aplica nas lavouras, sejam elas quais forem, permanece no local da aplicação, os demais 99% sendo transportados para outras regiões e ambientes, contaminando-os. No caso do trigo, o glifosato, aplicado uma a duas semanas antes da colheita, como se o valiosíssimo  trigo fosse uma erva má, que se quer erradicar, certamente aparecerá como resíduo na farinha, com a qual se faz o pão nosso de cada dia, especialmente se esta é integral, que, ao contrário do que se pensa e deseja, pode conter muito mais resíduo tóxico pela não remoção da película que a torna mais nutritiva e com maior teor de fibra.  Lembremo-nos que a maior parte do trigo que importamos vêm dessas regiões. A orgia química com o herbicida usado como dissecante  já inclui outros cereais, inclusive no Brasil, que é o maior consumidor de agrotóxicos do planeta: aveia, centeio, cevada e, possivelmente, arroz e feijões.

          Em contrapartida, médios produtores orgânicos de trigo na Europa e grandes produtores desse cereal no Canadá e nos Estados Unidos, estão há décadas produzindo ótimas colheitas sem o uso de agrotóxicos e de adubos solúveis, com técnicas modernas, dentre as quais entram rotações com leguminosas, pousio do solo, e variedades mais bem adaptadas a esta forma de agricultura, como o “trigo espelta” (Triticum spelta) plantado em muitas fazendas canadenses e italianas. No Brasil, farinha de trigo orgânica, integral ou branca, já está disponível em alguns supermercados e em redes credenciadas.

Adilson D. Paschoal, Ph.D

Professor Titular / Professor Sênior do Departamento de Entomologia e Acarologia (ESALQ-USP).

Categoria(s): Agrotóxicos, Saúde