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Sítio Escola Portão Grande traz organismos da mata para dentro da agricultura e multiplica alimentos nutritivos
08/08/2016 10:35
Sítio Escola Portão Grande traz organismos da mata para dentro da agricultura e multiplica alimentos nutritivos

A visão de alfaces gigantes ou as bananas de sabor doce e intenso do Sítio Escola Portão Grande, em Várzea Paulista (SP) são fruto de um trabalho diferenciado de experimentação na agricultura orgânica. Seres microscópicos que se escondem no interior do solo da propriedade são colocados na lavoura, após um amplo trabalho de mistura e fermentação, que dá origem à “sopa de bactérias”, composta por uma rica parte dos elementos da mata.

Nas palavras do proprietário do sítio Antônio Feres, essa sopa traz a “alma da floresta” para a terra e parece fazer mágica com a qualidade dos cultivos. Na chamada escala Brix, que mede a quantidade de sólidos solúveis nos alimentos, as frutas e legumes do sítio são recordistas em nutrientes.

O método de retirar micro-organismos do solo da mata nativa para criar o biofertilizante natural reflete um jeito pessoal de praticar a agricultura, onde o produtor Antônio testa e desenvolve saberes que promovem uma alquimia nas condições locais, permitindo a expressão do melhor potencial produtivo das espécies vegetais.

Quanto maior a diversidade de fungos, protozoários, nematoides, minhocas e outros seres da natureza no solo, mais os vegetais crescerão saudáveis. Isso porque a riqueza do solo não provém de seus componentes minerais, mas desses pequenos seres que processam e disponibilizam essas substâncias. O alimento produzido será igualmente mais nutritivo, saboroso e saudável.

“Vou identificando os micro-organismos, como os fungos coloridos que digerem as folhas de bambu e estimulam o crescimento das plantas, ou testando o uso de aveia, melaço e trigo, que fazem proliferar as bactérias, cuja grande maioria é benéfica ao organismo, brinco que elas só precisam de casa, comida e água pura”, diz Antônio.

Recentemente, ele achou algumas sementes de ervilha esquecidas na casa do sítio e resolveu testá-las. Como um cientista, semeou os 10 grãos deixados na gaveta por seu pai, dos quais somente 3 pés germinaram. Aos poucos e com paciência, foi possível reproduzir novas gerações. Além da satisfação de desenvolver uma variedade local, a área já soma mais 100 pés da nova ervilha, confirmando-se o ideal de buscar a excelência do alimento cultivado da semente ao prato.

O Sítio Escola Portão Grande tem como filosofia unir a qualidade da prática agrícola com a promoção do ensino gratuito para a comunidade, idealizando uma agro pedagogia que possibilita crianças e adultos aprenderem com a mão na terra. Essa iniciativa é importante pois faz das pessoas parceiras da proteção ambiental, num cenário em que o Sítio Escola resiste à forte pressão imobiliária, sendo o último módulo rural da cidade de Várzea Paulista, Cinturão Verde de São Paulo. Os 15 hectares da propriedade estão tão ameaçados pela ocupação desordenada que a antiga cerca precisou dar lugar a uma guarita e, principalmente, ao trabalho de trazer a população para atividades educativas.


Da engenharia naval à biologia

Para conduzir este projeto de integração da agricultura com a transformação pela educação, Antônio voltou sua vida profissional ao estudo da microbiologia e seus seres invisíveis, fortalecendo o ideal do cultivo baseado na riqueza do solo. No início de 2016, adquiriu um microscópio ótico que aumenta de 40 a 2 mil vezes a visão das amostras dos micro-organismos.

“É mais uma ferramenta para conhecer mais as interações biológicas e apostar no sítio como um novo modelo de desenvolvimento local. Tudo nasceu do sonho de meu pai em valorizar o trabalho na terra e incluir as pessoas. A propriedade foi adquirida há mais de 50 anos e, apesar dele manter um mercado local de secos e molhados, era como agricultor que se realizava plenamente”, conta. Ainda em 2011, a família se uniu em torno do projeto e fundou a Associação Sítio Escola Portão Grande, hoje com mais de cem associados.

Com isso, foi necessário reorientar seu próprio projeto de vida visando construir a sustentabilidade da associação. Formado em engenharia naval pela USP, dedicou-se anos a grandes empresas no setor de energia e até à pesquisa aplicada à exploração de petróleo. Também abriu seu próprio negócio de provedores para a internet em Jundiaí e, hoje, ainda combina a atividade com a dedicação ao sítio.

Aos poucos, a família vem sendo atraída para o projeto. Um de seus filhos, Caio Strauch Feres, formado em economia e especializado em medicina ayurvédica, passou a trabalhar com o pai no sítio, assim como seu cunhado Salvador Carmelo, que divide as tarefas da propriedade.

Juntos, eles podem ser vistos na feira de domingo do Villa Lobos, parceria da AAO com o shopping. Neste momento, descobrem a importância da relação com o público e como atender à busca por diversidade de alimentos.

“Tento transmitir a realidade do sítio, conto a história da descoberta das sementes de ervilha e todos ficam muito interessados. Queremos vender algo só nosso, as pessoas valorizam quem produz, e também nos retornam sobre a qualidade e durabilidade dos produtos”, diz Antônio, cuja produção comercializada já chega a 26 itens de hortaliças e frutas.


Revelações de um dia de campo

Com o conceito de que o solo é algo dinâmico e que as plantas bem nutridas possuem capacidade de cura e autodefesa contra pragas e doenças, no qual baseia-se a agroecologia, Caio diz que o esforço é equilibrar e fortalecer o sistema agrícola como um todo, ao invés de tentar combater as consequências do desequilíbrio, como ocorre no uso de defensivos químicos.

Assim, as atividades vêm se combinando e reforçando na propriedade, a exemplo da formação de um lago com água da mina local, onde cultivam tilápias, do uso de espécies locais, como o inhame nativo, e da criação de abelhas brasileiras como a Jataí ou Mandaçaia, responsáveis por polinizar boa parte dos cultivos, a exemplo da abobrinha italiana. Tudo está interligado e já é possível observar a volta da fauna na área, como sapos, garças e macacos bugio.

“O sonho é que a propriedade seja 100% produtiva e mantenha sempre a circulação de pessoas, além de interagirmos com programas públicos, como o fornecimento à merenda escolar e a recepção das escolas da rede municipal”, destaca Caio.

De fato, o trabalho com a terra ensina valores e atitudes, o que também inspirou a criação da atividade “Dia de Campo” no sítio, para a recepção de grupos e amplo aprendizado vivencial. Em 4 roteiros – fertilização do solo, uso da água, polinização e produção agrícola – os visitantes descobrem os vários temas que integram o sistema orgânico.

De universitários a bombeiros e crianças do ensino fundamental, muitos já passaram por ali, reforçando sua integração com a natureza e o potencial de desenvolvimento humano. “Crianças colocam a mão na massa, pegam minhocas e levam até banho com a sopa de micro-organismos, aproximando-se dos elementos naturais”, revela Antônio.

Por trás do trabalho, permanece o valor dado à Mata Atlântica local, que hoje ocupa mais da metade da área da propriedade e é a fonte da potência natural das plantas que servirão de alimento a todos nós.

Categoria(s): Agricultura Orgânica