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Flórida não é mais a terra da laranja
30/08/2016 22:20

Por Julie Wernau

O mercado de suco de laranja congelado concentrado já não é mais o mesmo. Os operadores estão deixando o setor há anos, devido ao enfraquecimento da demanda por suco e uma insistente praga que tem levado os produtores a abandonar os laranjais. Agora, com o início do período de furacões na região da Flórida, os que continuaram o plantio enfrentam o risco de uma tempestade destruir o que sobrou da safra no Estado americano, que pode ser a menor em 52 anos.

Para Adam Putnam, comissário do Departamento de Agricultura e de Serviços de Consumo da Flórida, as famílias de produtores que plantam citros há gerações atingiram o nível máximo de tolerância a risco.

O número de contratos futuros mantidos por operadores caiu cerca de 70% em relação à máxima de 48.921 contratos registrada em 1997, para 15.410 na semana passada. Apenas 71 operadores negociavam no mercado de futuros de suco de laranja, ante 168 em 2004.

É muito pouco para ter utilidade como "hedge", instrumento de proteção contra risco, dizem analistas. O mercado de açúcar, por exemplo, tem centenas de operadores e um volume de contratos em aberto 50 vezes maior.

Roger Corrado tinha 19 anos quando entrou no pregão de futuros de suco de laranja em Nova York, em 1981. Era um contrato importante - que existia desde 1966 -, com grandes oscilações conforme as previsões de safra e o clima. "Nada oscilava mais que o [contrato de] suco de laranja", diz. Hoje, Corrado está desistindo. O mercado é uma cidade fantasma, diz ele. "É como jogar xadrez contra o computador. Você não vai ganhar."

Os americanos beberam menos suco de laranja em 2015 do que em qualquer ano desde que a Nielsen começou a coletar dados, em 2002, diante do aumento do consumo de bebidas mais exóticas e energéticos e da redução no número de famílias que se sentam à mesa para tomar café da manhã.

E quando elas bebem suco de laranja, não estão bebendo o suco concentrado. O suco de laranja concentrado congelado foi criado na Flórida nos anos 40, principalmente para atender os militares, já que ele é mais facilmente armazenado e transportado. Mas ele vem perdendo mercado há anos.

Atualmente, os americanos bebem 5,3 milhões de litros de suco concentrado por mês, comparados com 72,3 milhões de litros de suco fresco consumidos mensalmente, segundo a Nielsen.

A operadora de commodities Louis Dreyfus Co. está reduzindo sua unidade na Flórida voltada

exclusivamente ao suco de laranja concentrado. Ela está demitindo 59 dos 94 funcionários da unidade que enlata suco concentrado para o varejo, que está sendo vendida.

Agora há somente sete processadores de suco de laranja na Flórida, ante mais de 50 no Estado que já foi chamado de terra da bebida. A maioria negocia contratos de fornecimento de longa duração diretamente com os produtores. Os contratos futuros não são muito úteis para proteger os produtores porque os preços do suco concentrado congelado não acompanham os preços pagos pelo suco fresco.

A ironia é que este é um ano em que os produtores poderiam ter feito um bom hedge. A praga, o amarelão dos citros, reduziu a safra da Flórida pela metade nos últimos anos.

Elizabeth Steger, que faz previsões independentes muito acompanhadas pelo mercado, estima que a Flórida vai produzir 60,5 milhões de caixas de laranja no ano-safra 2016-17, que começa em 1o de outubro. Isso representa uma queda de 26% ante a estimativa final de 2015-16 do Departamento de Agricultura dos EUA.

Cerca de 52,6 mil hectares com citros foram abandonados no Estado, segundo a associação de produtores Florida Citrus Mutual. "Nesse momento, os citros não estão dando nada a ninguém", diz David Crews, pequeno produtor de citros da Flórida e que lidera a cooperativa Waverly Growers.

Árvores doentes são derrubadas e substituídas por outras, que também estão contraindo a doença. Em agosto, as laranjas pareciam estar se desenvolvendo normalmente. Em novembro, as plantações estavam cheias de frutas verdes e prematuras.

Com a produção em queda na Flórida, fonte da maior parte das laranjas usadas na produção de sucos dos EUA, as importações do Brasil cresceram. O Brasil é o maior produtor e responsável por 80% das

exportações mundiais de suco, de acordo com a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos do Brasil (CitrusBR). Mas o país também está lutando com quedas expressivas na produção, em parte devido também a ataques do amarelão e devido ao clima, produzindo metade do suco de laranja que produzia há dez anos.

Em volume, entretanto, o Brasil nunca exportou tanto para os EUA como na safra 2014-15, com o embarque de 212.756 toneladas equivalentes de suco concentrado, 21,5% a mais que um ano antes, segundo dados do Departamento de Citros da Flórida compilados pela empresa de pesquisa Markestrat. "Mas os dados da safra atual já indicam uma pequena retração nas exportações", diz Ibiapaba Netto, diretor executivo da CitrosBR.

Ele diz que 59% das importações de suco dos EUA vêm hoje do Brasil e essa participação tem se mantido estável nos últimos anos, com pequenas oscilações anuais. "O Brasil é o principal fornecedor de suco importado para os EUA e devemos manter essa posição. A queda no consumo interno de suco nos EUA está compensando a quebra da safra da Flórida. Isso está impedindo que essas importações aumentem muito", diz ele. Netto estima que a queda no consumo americano - que foi de 38% de 2005 a 2015, segundo a Markestrat - fez com que o Brasil perdesse a oportunidade de exportar 400 mil toneladas equivalente de suco para os EUA. "Se não houvesse a queda no consumo, a quebra da Flórida impulsionaria nossas exportações", diz ele.

(Colaborou Eduardo Magossi.)

Categoria(s): Notícias