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ARTIGO - BREVE REFLEXÃO SOBRE OS AGROTÓXICOS: SABEDORIA DAS PLANTAS. Prof. Adilson D. Paschoal, Professor de Agroecologia e Agricultura Orgânica ESALQ-USP.
28/11/2012 19:16
Nos ecossistemas tropicais e subtropicais (ao contrário daqueles de clima temperado) o fator biológico é o principal agente regulador de populações de espécies fitófagas; isso explica a maior biodiversidade neles existentes, o maior número de interações tróficas e a maior estabilidade. O mesmo é verdadeiro para os agroecossistemas, com pragas e patógenos só atingindo níveis de dano econômico quando desequilíbrios ocorrem motivados por fatores que: 1) Diminuem a diversidade de culturas no tempo (monocultivos) e no espaço (ausência de culturas intercalares e de vegetação natural de cobertura); 2. Reduzem a diversidade de macro e de microespécies úteis existentes na rizosfera (por falta de matéria orgânica no solo, responsável pelas características físicas, químicas e biológicas desejáveis, e flora pobre acima dele); 3. Desregulam o equilíbrio bioquímico das culturas, diminuindo a síntese de proteínas (com acúmulo de aminoácidos) e de açúcares complexos (com acúmulo de monossacarídeos), motivados pelo uso de agrotóxicos e de adubos minerais solúveis; 4. Promovem a morte de inimigos naturais e competidores (pelo uso de agrotóxicos de síntese); 5. Induzem ao uso de variedades susceptíveis ou pouco tolerantes a pragas e patógenos, melhoradas principalmente para alta resposta a adubos solúveis (maior produtividade), ou para melhorar o sabor, o aspecto externo e a resistência no transporte e na distribuição.Tudo isso já é do conhecimento do agricultor orgânico. Presentemente, porém, um novo campo se abriu à pesquisa e alguns trabalhos têm aparecido provando muito do que suspeitávamos no passado: os agrotóxicos também são capazes de diminuir a resistência natural das plantas às pragas e doenças por suprimir o fator evolutivo de pressão seletiva, isto é, a espécie fitófaga (praga ou patógeno). Assim, quando as espécies que se alimentam de plantas estão presentes nas culturas (e impedidas de atingirem níveis de danos econômicos pelas técnicas citadas acima) o fator seletivo existe e é detectado de alguma forma pelas plantas (possivelmente por processo bioquímico alelopático), fazendo com que elas produzam substâncias de defesa (fitoalexinas, por exemplo). Excluindo-se as espécies fitófagas pelo uso de agrotóxicos, o fator de pressão seletiva deixa de existir e as plantas acabam sendo selecionadas para outros fatores do ambiente que não a resistência ao ataque desses organismos, modificando-se, assim, a genética da população da cultura pelo processo evolutivo. (Ver artigo seguinte - Plantas sem Insetos).Dessa forma, os agrotóxicos são poderosos agentes modificadores da genética populacional das plantas cultivadas e do mecanismo evolutivo em curto prazo. Consequentemente, nos sistemas convencionais as plantas perdem seu poder de autodefesa o que exige contínuo uso de produtos químicos. Por outro lado, nos sistemas orgânicos, onde múltiplas espécies fitófagas estão presentes, em populações baixas quando manejados corretamente, as plantas são capazes de se autodefenderem indefinidamente; além das fitoalexinas protetoras, outros mecanismos bioquímicos são desencadeados atraindo predadores quando a presença deles se torna necessária.O dia chegará quando saberemos compreender que o processo bioquímico das plantas é o seu sistema nervoso. Quando isso acontecer, poderemos entendê-las melhor nas suas necessidades. Aparelhos existirão para detectar os “chamados” das plantas e outros para induzi-las a aumentar seus mecanismos fisioquímicos de defesa e bem estar.