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Agrotóxicos - Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) disponibiliza o acesso completo ao dossiê sobre impactos dos agrotóxicos.
29/11/2012 19:16
Fonte: EcoAgência Solidária de Notícias Ambientais.

O maior Dossiê já produzido no Brasil sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde teve o lançamento da sua última parte, recentemente, em Porto Alegre. O estudo da Abrasco, Associação Brasileira de Saúde Coletiva, aponta para a importância de ouvir as comunidades que entram em contato direto com os venenos para que relatem como a indústria da agricultura química tem influenciado a prática camponesa. O lançamento aconteceu em sessão especial do 10º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva em 16 de novembro. 
A conclusão do estudo é de que o conhecimento científico e tecnológico não deve intencionar sobrepujar o saber tradicional das comunidades, mas conviver com harmonia e complementaridade. O Dossiê da Abrasco aconselha ampliar as pesquisas sobre os resquícios de agrotóxicos na soja, nas carnes e no leite e seus derivados. O levantamento ainda pede que a Secretaria de Agricultura e o Ministério do Meio Ambiente fiscalizem com maior rigor o uso de agrotóxicos já banidos em outros países e também pela legislação brasileira, mas que continuam sendo aplicados nas lavouras do país.
A novidade no lançamento foram as Vozes do Territórios, que trazem depoimentos e cartas de dezenas de comunidades pelo país. O contato com as comunidades foi realizado com ajuda da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida. Do Rio Grande do Sul, veio o relato de Juarez Antônio Felipe Pereira, rizicultor ecologista de Barra do Ribeiro. Quem explica é a médica Raquel Rigotto, que coordenou a equipe de mais de 20 pesquisadores.
"Discutindo e problematizando o conhecimento científico, a forma como ele vem sendo construído, a maneira como é recortado por uma perspectiva positivista e quantitativista e a participação da ciência na viabilização do projeto de sociedade da modernização agrícola, a gente vai ao encontro dos saberes populares, camponeses e tradicionais - que são saberes de convivência com agrotóxicos em seus territórios, na medida em que a Revolução Verde atinge grandes empresas mas também é imposta à agricultura camponesa. Procuramos as experiências construídas por essas comunidades de alternativas a esse modelo de desenvolvimento, especialmente no campo da agroecologia, entendida não só como um processo de produção de alimentos livres de agrotóxicos, mas alimentos livres de injustiça social. Alimentos que contenham reforma agrária, promoção da equidade, que contemplem a questão de gênero, a saúde das populações camponesas, a preservação da biodiversidade, o cuidado com as nossas fontes de água."
Para Raquel, promover uma crítica ao modo industrial de produção alimentar é pensar sistemicamente a rede de produção desses alimentos. A crítica deve, portanto, se estender para a o viés social. "Temos tentado aproximar o conhecimento científico do conhecimento popular, porque a agroecologia resulta exatamente disso: de a gente, enquanto cientistas, abrir mão dessa verdade arrogante que desqualifica ou ignora os demais saberes. Esse diálogo - que já iniciou - nos permite construir conhecimento junto dos agricultores e agricultoras nos seus territórios, biomas e ecossistemas e diante dos desafios atuais. Porque uma das constatações muito tristes é que, apesar da existência de belíssimas experiências de agroecologia, a maioria está ameçada, sofrendo um encurralamento por parte do agronegócio. De forma que fica muito clara a importância da bandeira dos territórios livres de agrotóxicos e transgênicos, dos direitos territoriais das populações camponesas, indígenas, quilombolas, de preservar os modos de vida tradicionais - que se atualizam, que não estão parados no tempo -, garantindo não só a vida dessas pessoas mas também soberania territorial, ambiental e alimentar".
Durante a solenidade de lançamento do estudo, também foi oficializado o apoio da entidade a Luís Cláudio Meirelles, gerente-geral de toxicologia da Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que foi exonerado do cargo em 14 de novembro por denunciar irregularidades na liberação de agrotóxicos. Segundo ele, produtos foram liberados sem passar por avaliação toxicológica, desapareceram processos em situação irregular e sua própria assinatura foi falsificada em alguns documentos. Frente ao ocorrido, ele afirma que solicitou o afastamento do gerente da GAVRI, Gerência de Avaliação do Risco. Mas quem acabou afastado foi ele: Meirelles relatou que o próprio diretor-presidente transmitiu o comunicado de que a atitude de Meirelles não foi apropriada.
Segundo Fernando Carneiro, professor da UnB, Universidade de Brasília, que coordenou a primeira parte do dossiê, a ideia é prolongar os estudos para a América Latina: "A ideia do Dossiê Latinoamericano surge na Cúpula dos Povos, numa reunião da Abrasco com a Via Campesina Internacional. Hoje a campanha contra os agrotóxicos não é mais nacional, é continental, articulando grupos de pesquisa locais. O que o Brasil vive hoje, é muito parecido com o que vive a Argentina, o Paraguai, a Bolívia. Oito países já estão traduzindo o dossiê brasileiro. O objetivo é mostrar que é possível fazer ciência de forma mais integrada, mais crítica, para buscar uma transformação social, e que sensibilize o Estado para garantir direitos que estão sendo realmente violados".
A primeira parte do Dossiê (Agrotóxicos, Segurança alimentar e nutricional e Saúde) foi lançada em abril, no World Nutrition Rio 2012. A segunda (Agrotóxicos, Saúde, Ambiente e Sustentabilidade), na Rio +20, em junho. É possível fazer o download do dossiê completo na página oficial do levantamento.

Por Anelise De Carli - especial para a EcoAgência

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