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Agricultura ecológica e a saúde humana - Parte 2
17/08/2011 21:07

A Revolução Verde da década de 50, baseada em um olhar neomalthusiano, subordinou a agricultura ao capital industrial e ignorou métodos tradicionaius de manejo ecológico do solo como o plantio direto (utilizado tradicionalmente pelos índios), adubação verde com cobertura permanente do solo, etc (Miller 2.002) A saúde e principalmente o bem-estar e a qualidade de vida decorrem não só da qualidade dos alimentos consumidos por uma população mas também do seu estilo de vida. A História mostra que os povos mais longevos e saudáveis ingeriam alimentos naturais produzidos no local que habitavam sem conservantes através de uma verdadeira agricultura, isto é, de uma cultura humana alicersada no solo vivo reverenciado por vários rituais, integrados por uma convivência consciente e saudável com a Natureza. São exemplo desses modelos os Mayas, os habitantes da Nova guiné e também do Vale dos Hunza e Vilcabamba no Equador, bem como as populações que habitam hoje a Serra Gaúcha do Brasil. A longevidade dos colonos da região de Taquari (RS) é uma das maiores do país. Eles tem uma cultura alimentar mediterrânea (consagrada pela literatura médica mundial como preventiva de doenças crônicas) mas também tem uma relação direta com a produção agropecuária que os sustenta e tem uma forte estrutura familiar que gera confiança (Azevedo, 2.003).

Acredita-se que a natureza da espécie humana seja matriarcal. Recentes estudos arqueológicos realizados na Europa meridional sugerem que os primórdios da agricultura tenham acontecido por volta de 7.000 a.C. Essas investigações encontraram evidências de sociedades agrícolas de vida confortável não fortificadas, de orientação matriarcal e divindades femininas. Produziam cerâmicas elaboradas ao invés de armas (Gimbutas, 1.974). A atitude matriarcal é inclusiva, continente e holística, nela o ser humano é parte indissociável da Natureza como numa cosmologia taoísta. A sensibilidadee a intuição prevalecem sobre o intelecto que se torna apenas um instrumento para decifrar o produto da intuição planejando a ação decorrente. O solo é um recipiente fecundo e vivo que aconchega a semente reciclando a vida. Podemos reconhecer essa atitude nos versos do índio norte-americano da tripo Wanapum: "Devo pegar uma faca e rasgar o seio de minha mãe? Então quando eu morrer ela não me tomará em seu seio para repousar. Você (homem branco) me pede para escavar o chão procurando pedra! Posso escavar sob sua pele procurando seus ossos? Então, quando eu morrer, não poderei entrar no seu corpo para renascer. Você (homem branco) me pede para cortar a grama e fazer feno e vendê-lo, e ficar rico como os homens brancos! Mas como eu ousaria cortar os cabelos de minha mãe?" (Eliade, 1.959 pg.138)

Entre 4.000 e 3.500 a.C. Esse panorama paradisíaco lastreado na acolhedora atitude feminina foi invadido por culturas guerreiras ávidas de recursos. Surgia a era do patriarcado, do poder temporal, da força bruta subjugando a sutileza natural. A ascenção do poder masculino culminou, no Ocidente, com a Inquisição que queimou toda a cultura tradicional (matriarcal) em nome da Instituição Religiosa dominada pelo homem. Os concílios de Latrão (900 d.C.) e Trento (1.100 d.C.) decretaram a separação entre corpo e alma. Inicialmente apenas o ser humano masculino teve o privilégio de reter sua condição anímica! Mulheres, crianças, animais, negros, índios, tronaram-se "coisas" insensíveis que podiam ser comercializadas livremente.

Também a Natureza passou a ser encarada como uma "coisa" exclusivamente material que precisava ser explorada e dominada. Percebe-se evidentemente essa ideologia na desnecessária brutalidade com que passaram a ser tratados os animais. Exemplo dessa condição é a forma gentil com que os índio norte-americanos acolheram os cavalos (trazidos pelos europeus) encantando-os com sua sensibilidade, enquanto a equitação européia era repleta de ferros torturantes que procuravam intimidar e dominar "a besta". O homem, especialmente o europeu medieval, passou a projetar sua negatividade na Natureza ao seu redor desenvolvendo um medo insano dos animais e meio ambiente. Defendia-se desse agressor ilusório matando e maltratando os animais, ateando fogo as florestas, estuprando as mulheres (temendo seus poderes enfeitiçantes!). Essa condição materialista demundo foi instaurada pela Inquisição. Galileu salvou sua vida abrindo mão de seu olhar abrangente do Cosmo, porém muitos pereceram levando consigo a sabedoria tradicional do Ocidente.

Durante séculos o materialismo exclusivo dominou as ciências. Ao dividir o homem em corpo material e espírito, a Igreja aprisionou o livre desenvolvimento humano condenando-o ao desfrute meramente material da vida. Anteriormente um artesão, um agricultor, exerciam seus ofícios com a responsabilidade de serem felizes e alimentarem suas almas. Porém a Igreja tomou para si o cuidado do espírito, do comportamento. Somente os sacramentos podiam salvar o espírito de uma vida que passou a terminar com a morte (as culturas tradicionais entendiam que a existência não teminava com a morte física). Recluso ao mundo material, o ser humano ocidental passou a desfrutar alienadamente tudo o que pudesse durante sua curta vida mundana, temendo o pecado, temendo Deus, temendo a Natureza (que deveria ser usufruída!

Por: Fernando Bignard

Categoria(s): Artigos, Saúde