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José Lutzenberger

O Absurdo da Agricultura Moderna - Dos Fertilizantes Químicos e Agrotóxicos à Biotecnologia (1)


  A DISSOCIAÇÃO ENTRE HOMEM E NATUREZA

  Reflexos no desenvolvimento humano

  Coordenado por A.A.W.Miklós

  Ed. Antroposófica, 2000

  José Lutzenberger - Outubro de 1998 - Fundação Gaia, Rio de Janeiro

  

Na controvérsia reinante atualmente em torno da biotecnologia, como vem sendo aplicada à agricultura, existe muita desinformação, resultando em preocupação desnecessária em algumas áreas e uma muito mais séria falta de preocupação em outras. É preciso olhar o quadro completo para poder entender por que e como a produção agrícola é cada vez mais dominada por corporações gigantes. Nos dias de hoje, o quase total controle da biotecnologia pelas grandes empresas é apenas pela culminação de um processo que vem crescendo nos últimos 75 anos.

Vamos analisar o panorama da agricultura segundo a perspectiva atual.

A agricultura foi inventada entre dez e quinze mil anos atrás, e nos últimos dois ou três mil anos evoluiu para belas e sustentáveis culturas camponesas, localmente adaptadas e sustentáveis, em muitas regiões do mundo, especialmente na Europa, na Ásia, no México, na América Central, nos Andes e em algumas regiões na África. Desde o início da colonização, agricultores americanos, apesar de muitos desastres, tais como as tempestades de poeira, também desenvolveram belos sistemas agrícolas, que se estavam tornando sustentáveis. Muitas dessas culturas ainda estavam intactas até o final da Segunda Guerra Mundial. As poucas remanescentes estão agora sendo desestruturadas.

A indústria tem conseguido sucessivamente apropriar-se de uma parte crescente das atividades dos agricultores, tomando deles tudo o que permita a ela própria a obtenção de lucros seguros e deixando-lhes os riscos – o risco de má colheita devido a mau tempo e o risco de perder dinheiro devido à crescente dependência de insumos agrícolas, que devem ser adquiridos a preços crescentes embora tendo-se de vender o próprio produto a preços cada vez mais baixos.

 

O argumento convencional em favor dos métodos da agricultura moderna é que eles constituem a única maneira eficiente de resolver o problema da fome mundial e da alimentação das massas que ainda estão por vir com a explosão populacional. Mas isto é uma ilusão. É certo que os métodos agrícolas tradicionais poderiam ser aperfeiçoados com o conhecimento científico atual de como as plantas crescem, da estrutura do solo, da química e vida do mesmo, bem como do metabolismo das plantas e assim por diante. Mas o aperfeiçoamento não precisa ser direcionado para monoculturas gigantescas, altamente mecanizadas e com toda parafernálias dos fertilizantes comerciais e venenos sintéticos, com a produção agrícola sendo transportada pelo mundo todo. A grande monocultura foi invenção do colonialismo. Os poderes coloniais não podiam extrair muito do campesinato tradicional, com suas safras altamente diversificadas para subsistência e direcionadas para os mercados regionais e locais. Eles queriam grandes quantidades de algodão, açúcar, café, chá, cacau e outros. Isto conduziu a marginalização de milhões de pessoas e também esteve na raiz do tráfico de escravos da África para as Américas, uma das maiores calamidades da história humana.

Mas o problema fundamental com a agricultura moderna é que ela não é sustentável. Mesmo se fosse tão produtiva quanto se afirma, o desastre seria apenas postergado, tornando-se então muito pior. Se quisermos alimentar as massas crescentes – é claro que deveremos encontrar também maneiras de controlar nossos números -, teremos de desenvolver métodos de produção agrícola sustentável.

Com muito poucas exceções, os camponeses tradicionais desenvolveram métodos sustentáveis. Os agricultores chineses, por exemplo, por três mil anos obtiveram alta produtividade de seus solos sem comprometer a fertilidade. Ao contrário, desenvolveram e mantiveram uma fertilidade máxima do solo. Os agricultores regenerativos modernos estão aprendendo a tornar-se cada vez mais sustentáveis, com colheitas ótimas e métodos localmente adaptados, enquanto recuperam e mantém a biodiversidade em seus cultivares e na paisagem circundante. Vamos chamá-los agricultores regenerativos, e não biológicos, orgânicos ou alternativos. Quanto se trata de vida, seja bom ou mau, tudo é biológico, é orgânico, mesmo grandes massacres. Alternativo significa apenas diferente, poderia ser pior. Mas regenerativo, significa regeneração do que tem sido perdido ou destruído.

 

A agricultura moderna tem se desligado da lógica dos sistemas vivos naturais. Todos os ecossistemas naturais possuem retroação interna automática, a qual, desde o começo – tal como quando um novo pedaço de terra estéril, digamos, a encosta de um vulcão, é conquistado -, faz as condições ambientais melhorar até que um clímax de atividade biológica máxima e sustentável seja atingido. Nossos ecossistemas de agricultura moderna fazem exatamente o oposto, ao impor retroações (agroquímica, agressão mecânica ao solo) que gradualmente degradam o meio ambiente e empobrecem a biodiversidade.

Infelizmente, a agricultura moderna obtém sucesso exaurindo o solo e substituindo a fertilidade perdida por nutrientes que vem de fora. Fertilizantes comerciais, tais como fosfato, provém de minas que brevemente estarão esgotadas; as minas de potássio são mais abundantes, mas o nitrogênio, o mais importante elemento da atividade da agricultura moderna, embora venha da atmosfera – uma fonte virtualmente inesgotável – e para lá acabe voltando, é obtido pela síntese de amoníaco Haber-Bosch, um processo que consome enormes quantidades de energia, principalmente energia de combustíveis fósseis. Mesmo quando essa energia é proveniente de hidroelétricas, trata-se de eletricidade que poderia estar economizando combustíveis fósseis em outro lugar. Todos os outros insumos como os agrotóxicos e a maquinaria cada vez mais pesada, são também grande consumidores de energia.

Mas a agricultura, se olharmos de uma perspectiva holística, ecológica, é um esquema para colher energia solar via fotossíntese. Enquanto todas as formas de agricultura tradicional tem um balanço de energia positivo, a agricultura moderna perverte até mesmo este aspecto fundamental. Em sua maior parte, tem balanço de energia negativo. Quase todas as suas operações supostamente de alta produtividade requerem mais energia fóssil nos insumos do que está contido em seu produto. Para usar uma metáfora adequada, isto tem sido como um poço de petróleo onde o motor que aciona a bomba consome mais combustível do que ela pode extrair. Este tipo de operação só pode sobreviver com subsídios...

Sustenta-se que a agricultura moderna é tão eficiente que apenas em torno de 2% da população pode alimentar o total dela. Até a virada do século, na Europa, nos Estados Unidos e na maioria dos países quase 60% da população trabalhavam no campo.

 

No final da última Guerra Mundial, ainda eram quase 40%. Atualmente, nos Estados Unidos menos de 2% da população trabalham na agricultura. Na maioria dos países europeus o número está se aproximando dos 2%, visto que ainda continua a marginalização de agricultores. Agora, quando se afirma que nas economias modernas somente 2% das pessoas podem alimentar a população total, em comparação com 60% ou 40% no passado, isto é ou uma ilusão para os que acreditam ou uma mentira para os que sabem, baseada numa falsa comparação.

No contexto da economia, como um todo, o antigo campesinato era um sistema de produção, manipulação e distribuição de alimento que também produzia seu próprio insumo. A fertilidade do solo era mantida com esterco, rotação de cultivos, plantas companheiras, adubação verde, composto, cobertura morta e descanso da terra; as sementes eram selecionadas do melhor de cada safra; animais de carga e tração supriam a energia; os moinhos usavam vento ou água como fonte de energia. Tudo era energia solar. A pouca manipulação ou beneficiamento que os alimentos sofriam era feita na propriedade ou na aldeia, cujos artesãos também contavam como população rural. O mesmo se aplicava aos utensílios, arados, enxadas, carretas, etc. A maior parte da produção agrícola era entregue quase nas mãos do consumidor na feira semanal. Em nossa língua sobra uma linda relíquia daqueles tempos: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira...

Mas o agricultor moderno é apenas uma pequena engrenagem numa enorme infra-estrutura tecnocrática que requer até mesmo legislação especial e pesados subsídios. Comparado com seus antecessores, que faziam quase tudo relacionado com produção, processamento e distribuição de alimentos, ele não é muito mais do que um tratorista e um espalhador de veneno.

Depois da última Guerra Mundial, quando a Alemanha estava totalmente devastada, é verdade que o Plano Marshall ajudou, porém mais importante é que os habitantes das cidades podiam espalhar-se pelo campo e fazer hamstern, isto é, trocar qualquer coisa de valor - um relógio, um anel, um piano - por alimento. Os camponeses tinham comida, tinham cereais, feijão, batata, verduras, frutas, leite, queijo, frango, ganso e muito mais.

Não seria necessária uma guerra, hoje, para colocar os agricultores europeus numa posição em que eles próprios tivessem de fazer hamstern – mas onde?!