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José Lutzenberger

O Absurdo da Agricultura Moderna - Dos Fertilizantes Químicos e Agrotóxicos à Biotecnologia - Continuação (2)

Nenhuma bomba precisa cair. Um simples colapso na energia, no transporte, especialmente na importação de fertilizantes minerais e ração para gado, no sistema bancário e mesmo nas redes de computadores e comunicações, seria suficiente. Espantoso é que os militares não parecem estar preocupados. Fundamentalmente, a segurança nacional depende de uma agricultura sadia e sustentável.

O sistema atual de produção e distribuição de alimentos (incluindo fibras e alguns outros itens não-comestíveis) começa nos campos de petróleo, e todos os tipos de minas para metais e outra matérias-primas passa pelas refinarias, siderurgias e plantas de alumínio, etc., pela indústria química, a indústria de maquinaria, o sistema bancário, o envolvente sistema de transportes (consumindo principalmente combustíveis fósseis), computadores, supermercados, indústria de embalagens – e um complexo totalmente novo de indústrias que quase não existiam no passado: a indústria de manipulação de alimentos, que mais mereceria ser chamada de indústria de desnaturação e contaminação de alimentos (com aditivos e resíduos de agrotóxicos). Se quisermos comparar o agricultor de hoje com o tradicional, então todas as horas de trabalho nas indústrias acima mencionadas e algumas outras, bem como alguns serviços – como as empresas de fast-food, que, em inglês bem merecem o qualificativo de junk-food (comida – entulho), e a distribuição de alimentos -, até onde direta ou indiretamente contribuam para a produção, manipulação e distribuição alimentícia, precisam ser adicionados. Isto tudo deveria até mesmo incluir as horas de trabalho correspondentes ao dinheiro que, em outras profissões, precisa ser ganho para pagar os impostos que financiam os subsídios. É significativo que a maior parte dos subsídios vá não para o agricultor, mas para o complexo industrial. O agricultor é sempre mantido a beira da falência.

Um balanço completo deste tipo certamente mostraria que atualmente numa economia moderna, também em torno de 40% ou mais de todas as horas de trabalho vão para a produção, manipulação e distribuição da comida. Mas os economistas convencionais de hoje, aqueles que nossos governantes escutam, em sua visão não-holística alinham as fábricas de tratores e colheitadeiras com a indústria de maquinaria, as fábricas de fertilizantes químicos e agrotóxicos com a indústria química e assim por diante, como se elas nada tivesses a ver com alimentos.

 

O que temos, então, com poucas exceções, é redistribuição de tarefas e certas formas de concentração de poder nas grandes corporações, e não mais eficiência na agricultura.

Vamos olhar com mais detalhe para alguns dos aspectos decisivos: quase sempre o moderno sistema de produção e distribuição de alimentos, além de não ser mais produtivo em termos de eficiência de mão-de-obra, tampouco é mais eficaz em termos de produtividade por hectare. Em muitos casos, tais como na criação intensiva de animais, ele é mesmo destrutivo, consumindo mais alimento do que produz.

No sul do Brasil, durante a última metade do século XX a grande floresta subtropical do vale do Uruguai foi completamente demolida, deixando apenas algumas pequenas relíquias. A floresta foi derrubada e queimada com quase total destruição da madeira, para abrir espaço para a monocultura de soja. Isto não foi feito para aliviar o problema da fome nas regiões pobres do Brasil, mas para enriquecer uma minoria (pessoas sem tradição agrícola) com a exportação para o Mercado Comum Europeu a fim de alimentar gado. As plantações de soja estão entre as mais modernas – grandes, altamente mecanizadas e com os habituais insumos químicos. Essas plantações não são, de maneira alguma, atrasadas quando comparadas ao mesmo tipo de plantação nos E.U.A. Em nosso clima subtropical, o agricultor tem a vantagem suplementar de poder plantar trigo, cevada, centeio ou aveia, mas também de fazer feno e silagem no inverno sobre o mesmo solo, embora poucas vezes o faça. Comparada ao que nossos colonos faziam em solos similares, a produtividade é baixa raramente mais do que três toneladas de grãos (total verão-inverno) por hectare. O camponês, que produzia para alimentar a população local, facilmente obtinha 15 toneladas de comida por hectare, diversificando com mandioca, batata-doce, batata inglesa, cana-de-açúcar e grãos, mais verduras, uva e todos os tipos de frutas, feno e silagem para gado, além de porcos e galinhas. Mas ele não produzia PIB (produto interno bruto). O PIB só reflete fluxo de dinheiro, não levando em conta auto-suficiência e mercado local. A conta do PIB interessa ao banqueiro, ao governo, às grandes corporações transnacionais, nada tendo a ver com o bem estar das pessoas, da população. Quando estatísticas das Nações Unidas declaram que quase a metade da população mundial vive com menos de dois dólares por dia, isso leva a falsas conclusões. Ninguém viveria com dois dólares por dia se tivesse de comprar sua comida, roupa, utensílios no supermercado ou shopping center. No período áureo de nossa colônia no Rio Grande do Sul, anos 1930, o colono podia não ter um tostão no bolso, mas sempre tinha mesa farta, vivia muito bem.

 

Não obstante esta realidade, a política agrícola oficial tem sempre apoiado os grandes à custa dos campesinos. Centenas de milhares deles tiveram de desistir e partir para as cidades, freqüentemente para as favelas, ou mais para o norte, em direção à floresta Amazônica. Uma devastação tremenda foi feita com dinheiro do Banco Mundial no estado de Rondônia, e os pequenos agricultores que lá foram assentados, não sabendo como cultivar nos trópicos e sem apoio, em geral tem fracassado, deixando para trás devastação, enquanto novas áreas da floresta são desmatadas. No Brasil Central, o cerrado, o equivalente sul-americano da savana africana, está hoje sendo quase totalmente destruído para dar lugar a mais plantações de soja, uma das quais cobrindo uma centena de milhares de hectares contíguos. Em sua biodiversidade, o cerrado é tão valioso quanto à floresta tropical e, eventualmente, até mais.

Num exemplo concreto, também se argumenta que os índios camponeses em Chiapas, México, que agora estão lutando por sua sobrevivência, rebelando-se contra o NAFTA (mercado comum norte-americano), são atrasados, pois produzem somente duas toneladas de milho por hectare comparadas as seis nas plantações mexicanas modernas. Mas isso é somente parte do quadro – as plantações modernas produzem seis toneladas por hectare, e é só isso. Os índios, contudo, produzem uma colheita mista entre seus pés de milho, que também servem para suporte para variedades de feijão, que são trepadeiras; plantam legumes, abóbora, morangas, batata-doce, batata-inglesa, tomate e todo tipo de vegetais, frutas e ervas medicinais. A partir do mesmo hectare, eles também alimentam seu gado e suas galinhas. Eles produzem facilmente quinze toneladas de alimentos por hectare, e tudo sem fertilizantes comerciais ou pesticidas e sem assistência dos bancos, governos ou corporações transnacionais.

A marginalização de tais pessoas é a continuação de um dos maiores desastres dos tempos modernos. Ao chegar nas favelas das cidades, eles terão de comprar comida cultivada em monoculturas menos produtivas do que as culturas deles. Em última análise, existe então menos comida e mais pessoas para alimentar. Existe excesso em alguns lugares e falta em outros.

 

Freqüentemente sua terra é então tomada por criadores de gado, que raramente produzem mais do que 50 quilos de carne/hectare/ano. Centenas de histórias similares poderiam ser contadas. No caso de Chiapas, cada vale tinha sua língua e cultura diferentes. Acima de todas as calamidades pessoais, quando a terra perde seus camponeses, temos genocídio cultural.

No caso da criação em massa de animais para carne e ovos, os métodos são absolutamente destrutivos – muito mais alimento para humanos é destruído do que produzido. As galinhas, em seus tristes campos de concentração ou fábricas de ovos, eufemisticamente chamadas de “granjas”, são alimentadas com rações “cientificamente equilibradas”, consistindo em grãos de cereais, soja, torta de óleo de palma ou de mandioca, muitas vezes com farinha de peixe.

Conhecemos casos, no Brasil, em que sua ração contém leite em pó, proveniente do Mercado Comum Europeu... Isto as coloca então numa posição de competição com os humanos: nós as alimentamos com nossas lavouras. Um absurdo total, se o propósito é contribuir para resolver o problema da fome mundial. Na agricultura tradicional as galinhas comiam insetos, minhocas, esterco, ervas, capim e restos de cozinha e de colheita, aumentando desta maneira a capacidade de sustento das terras dos agricultores para humanos. Agora elas a diminuem.

Nestes esquemas, a razão de transformação da ração em alimento humano é próxima de vinte para um. É preciso levar em consideração que metade do peso dos animais vivos – penas, ossos, intestinos – não é consumida por nós e também é preciso considerar que as rações desidratadas e concentradas com um alto consumo de energia contêm até o máximo de 12% de água, enquanto a carne contém até 80%. Nos galpões de engorda, as operações mais eficientes usam em torno de 2,2 kg de ração para obter 1 kg de peso vivo, metade do qual é alimento humano. Então 2,2 para 1 se torna 4,4 para 1. Corrigindo o conteúdo de água: de 4,4 vezes 0,88 e 1 vez 0,2 se obtém 3,87 para 0,2, igual a 19,36 para 1. Quando se trata de gado bovino confinado, como nos feed lots de Chicago, a relação é umas cinco vezes pior.

Mais recentemente, algumas de nossas granjas “aperfeiçoaram” um pouco esta razão incluindo na ração rejeitos de galinhas abatidas antes, forçando-as desta maneira ao canibalismo(!). Outro aspecto absurdo disto tudo: as rações "cientificamente equilibradas" não contêm nada verde, o mesmo acontecendo em relação aos porcos.