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José Lutzenberger

O Absurdo da Agricultura Moderna - Dos Fertilizantes Químicos e Agrotóxicos à Biotecnologia - Continuação (3)

Mas galinhas e porcos são vorazes consumidores de ervas, gramíneas, frutos, nozes e raízes. Em nossos experimentos com agricultura sustentável na Fundação Gaia, também, os alimentamos com plantas aquáticas, com grande sucesso - animais saudáveis, sem antibióticos, sem drogas, sem veterinários.

Além disso, nos campos de concentração de galinhas e fábricas de ovos, assim como nos modernos calabouços de porcos, as pobres criaturas vivem sob condições de extremo estresse.

É tempo de acabar com a mentira de que apenas a agricultura promovida pela tecnocracia pode salvar a humanidade da inanição. O oposto é verdadeiro.

É preciso uma nova forma de balanço econômico que, à medida que some o que é chamado “produtividade” ou “progresso” na agricultura, também deduza todos os custos: as calamidades humanas, a devastação ambiental, a perda da diversidade biológica na paisagem circundante e a perda ainda mais tremenda de biodiversidade em nossos cultivares. Este segundo aspecto será agora enormemente agravado com a biotecnologia dominada pelas grandes empresas, como veremos mais adiante. E, mais importante e decisivo, a não-sustentabilidade disto tudo. Temos o direito de agir como se fôssemos a derradeira geração?

No caso de operações industriais envolvendo galinhas, é fácil ver como tais métodos destrutivos se desenvolveram. Estou falando do que observo no sul do Brasil – o Brasil é um grande exportador de carne de galinha, principalmente para o Oriente Médio e Japão. A partir de esquemas muito simples, em que pequenos empresários individuais confinavam galinhas num galpão e as alimentavam com milho, o sistema coalesceu e cresceu até o ponto de atualmente existirem em torno de meia dúzia de companhias muito grandes e umas poucas pequenas. Os grandes abatedouros abatem e processam até centenas de milhares de galinhas por dia, operando de acordo com regras impostas por eles, que as denominam "integração vertical". O "produtor" assina um contrato em que aceita comprar todos os seus insumos, pintinhos, ração e drogas da companhia. Mesmo que seja um agricultor e tenha uma grande produção de grãos, ele está proibido de usá-la para alimentar suas galinhas; é obrigado a comprar a ração pronta, mas pode vender seu milho para a fábrica de ração pertencente à mesma companhia proprietária do abatedouro e da incubadeira que produz os pintos.

Estes operam um tipo diferente de campo de concentração de galinhas, onde os prisioneiros são galos e poedeiras, um galo para cada dez galinhas. As galinhas não estão em pequenas gaiolas como nas fábricas de ovos: elas podem mover-se livremente dentro do galpão e pular para dentro de amplos ninhos para pôr os ovos. Nas operações de esteiras rolantes das fábricas de ovos, chamadas baterias, as pobres poedeiras estão confinadas, três em cada gaiola sobre uma grade de arame, e os ovos rolam para fora. Os pintos produzidos nestas incubadeiras não são mais de raças tradicionais de galinhas – são de marcas registradas, e híbridos; assim como o milho híbrido, não podem ser reproduzidos com manutenção de características raciais.

Após comprar todos os seus insumos da companhia com a qual assinou contrato, o produtor poderá vender somente para a mesma. Ele não é autorizado a vender a empresas concorrentes, e estas não comprariam. Assim, ele pode ter a ilusão de ser um pequeno empresário autônomo, mas sua situação real é a de um operário com horas de trabalho ilimitadas, sem fins de semana, feriados nem férias, e ainda tendo de pagar sua própria previdência social. Se a grande companhia trabalhasse com empregados de carteira assinada, ela não poderia fazê-lo – seria muito caro e arriscado. Desta maneira, deixam-se todos os riscos com o produtor: perda por doenças ou custos adicionais com drogas e antibióticos, choque de calor – um desastre comum durante os dias quentes de verão, quando centenas ou milhares de galinhas morrem nos abarrotados e mal ventilados galpões – e perdas durante o transporte. As galinhas que morrem nos caminhões da companhia, no trajeto para o abatedouro, são também descontadas. Os lucros também diminuem constantemente com o crescente preço dos insumos e a queda do faturamento com as vendas. A margem do produtor é tão apertada que, mesmo se tudo correr bem mas for preciso alimentar os animais mais alguns dias, o lucro poderá evaporar ou mesmo transformar-se em perda. Esta é uma ocorrência comum. O abatedouro agenda suas viagens de coletas de galinhas prontas de acordo com sua própria conveniência mas, se a companhia obtém lucros excepcionais no mercado de exportação, nada vai para o produtor...?

Portanto, os campos de concentração de galinhas nada tem a ver com maior produtividade para ajudar a salvar a humanidade da inanição – de fato, eles contribuem para o problema, mas concentram capital e poder pela criação de dependência.

 

Esses métodos não foram inventados pelos agricultores. É impensável que um agricultor numa cultura camponesa sadia tivesse a idéia de alimentar maciçamente suas galinhas com grãos, a menos que fossem grãos estragados, e isolá-las de uma fonte natural de alimentos, desperdiçando desta maneira parte da capacidade de sustentação do solo para humanos e ao mesmo tempo destruindo parte de sua colheita. Estes métodos tão pouco são resultados concatenados de uma conspiração pela tecnocracia. Tais esquemas crescem naturalmente a partir de uma “semente” inicial que pode ter tido uma intenção completamente diferente. Neste caso, como ocorreu também na agroquímica, era o esforço de guerra. A conspiração cresceu depois, ao longo do tempo. Durante a última Guerra Mundial, o governo americano iniciou o sistema de subsídios para a produção de grãos, que conduziu a enormes excedentes. Assim, as autoridades da agricultura procuraram “consumo não humano” para os grãos... “Integração vertical” é somente um estágio momentâneo no processo de concentração de poder. Em breve eles encontrarão maneiras de banir – por meio de legislação especial – a criação de galinhas soltas (caipiras) por agricultores independentes. Isso já foi tentado, sem sucesso, mas por dispositivos legais e especiais conseguiu-se tornar muito difícil para pequenos agricultores a venda de ovos no mercado aberto.

No caso do milho híbrido, tão pouco existia conspiração no início; ela veio mais tarde. Geneticistas descobriram que, pelo cruzamento de duas variedades super puras de milho – variedades obtidas após oito a dez gerações de autofecundação-, obtêm-se plantas de alta produtividade e uniformidade perfeita. Deve ter sido uma decepção descobrirem que as variedades não eram estáveis. Após ressemeadura, as variedades se degeneram, de acordo com as leis de Mendel. A nova colheita era caótica – pés de milho pequenos e grandes, uma espiga, muitas espigas, cores, formas e qualidades de grãos diferentes. Mas, do ponto de vista do vendedor de sementes, era uma verdadeira vantagem! O agricultor não mais poderia guardar sua própria semente: tinha de comprar sementes novas a cada ano. O vendedor não precisa sequer da proteção de uma patente.

Felizmente, na maioria dos cultivos – especialmente de grãos como o trigo, cevada, centeio e aveia – esse tipo de hibridização ainda não é economicamente viável para os geneticistas. Eles estão tentando com todas as culturas que podem.

 

Funciona com galinhas. No sul do Brasil, foi necessário fundar uma associação com o objetivo de preservar as raças tradicionais de galinhas. A maioria está agora em perigo de extinção. Algumas já se foram. Somente as cepas registradas de galinhas híbridas não estão ameaçadas (enquanto durar a loucura dos campos de concentração de galinhas e fábricas de ovos). Quanto ao milho, quase todas as variedades tradicionais se foram. Se um agricultor quer plantar uma delas, não ganham o crédito do banco. Apenas as variedades "registradas" são aceitas.

Atualmente, a manipulação genética direta chamada biotecnologia, que opera no âmbito do cromossomo, permite que o especialista assuma o controle, tirando-o do agricultor. Mas como a maioria dos produtos resultantes da manipulação genética direta não se degenera na reprodução, como o caso dos híbridos naturais, é preciso patentes. Retornaremos a este assunto.

Vejamos como nasceu a agroquímica:

Até final dos anos 1940, a pesquisa em agricultura visava soluções biológicas. A perspectiva era ecológica, embora mal se falasse em ecologia. Se esta tendência tivesse podido continuar, teríamos hoje muitas formas de agricultura sustentável, localmente adaptadas e altamente produtivas. Começando nos anos 1950, a indústria conseguiu fixar um novo paradigma – nas escolas, na extensão e na pesquisa agrícolas. Vamos chamá-lo de paradigma NPK + V (NPK corresponde a Nitrogênio, Fósforo, e Potássio, e o V significa veneno).

Os fertilizantes comerciais se tornaram um grande negócio depois da Primeira Guerra Mundial. Logo no começo da Guerra, o bloqueio aliado cortou o acesso dos alemães ao salitre chileno, essencial para a produção de explosivos. O processo Haber Bosch para fixação de nitrogênio a partir do ar, mencionado acima, era conhecido, mas ainda não tinha sido explorado comercialmente. Os alemães montaram então uma enorme capacidade de produção e conseguiram lutar por quatro anos. O que seria o mundo se esse processo não tivesse sido conhecido? A Primeira Guerra Mundial não se teria realmente desencadeado, não teria acontecido o Tratado de Versalhes, e, portanto, não teria havido Hitler...! Como uma tecnologia pode mudar o curso da história!

Quando a guerra acabou, havia enormes estoques e capacidade de produção, mas não havia mais grande mercado para explosivos.