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José Lutzenberger

O Absurdo da Agricultura Moderna - Dos Fertilizantes Químicos e Agrotóxicos à Biotecnologia - Continuação (4)

A indústria decidiu então empurrar fertilizantes nitrogenados para a agricultura. Até então, os agricultores estavam bastante satisfeitos com os seus métodos orgânicos de manutenção e aumento da fertilidade do solo. O guano e o salitre chileno eram usados de maneira muito limitada, principalmente em cultivos muito especiais, especialmente em jardinagem intensiva. Os fertilizantes nitrogenados em forma de sais quase puros e concentrados, fertilizantes a base de nitrato e amônia viviam, de certa forma – quanto mais se usa, mais se precisa usar. Logo eles se tornaram um grande negócio. Então a indústria desenvolveu um espectro completo, incluindo fósforo, potássio, cálcio, microelementos, mesmo sob a forma de sais complexos, aplicados na forma granulada, algumas vezes de avião.

A Segunda Guerra Mundial deu um grande empurrão para uma pequena e quase insignificante indústria de pesticidas e realmente a projetou para produção em grande escala. Hoje o equivalente a centenas de bilhões de dólares em veneno são espalhados sobre todo o Planeta. Durante a Primeira Guerra Mundial foi usado gás venenoso apenas uma vez com efeitos devastadores para ambos os lados, e por isso nunca mais foi empregado. Durante a Segunda Guerra Mundial não foram aplicados gases em batalha, mas muitas pesquisas foram desenvolvidas. A Bayer, entre outros, estava neste jogo. Ela desenvolveu os ésteres do ácido fosfórico. Depois da guerra eles tiveram uma grande capacidade de produção e estocagem, e concluíram que o que mata gente também mata os insetos. Fizeram novas fórmulas e as comercializaram como inseticida.

O DDT era conhecido como uma curiosidade de laboratório. Quando Muller, na Geigy, descobriu que matava insetos sem, aparentemente, afetar as pessoas, alertou as forças armadas americanas que estavam sofrendo com a malária no Pacífico enquanto lutavam com os japoneses. Usaram-no de forma totalmente descuidada, convencidos de que era inofensivo, espalhando-o sobre paisagens inteiras e até dentro de casas e sob a vestimenta das pessoas.

Pouco antes do fim da guerra do Pacífico, um cargueiro americano estava a caminho de Manila com uma carga de potentes fitocidas (biocidas que matam plantas) do grupo 2,4 – D e 2,4,5 – T. A intenção era matar de fome os japoneses destruindo suas colheitas mediante pulverização do veneno a partir do ar. Tarde demais: o barco teve ordem de voltar antes de chegar; outro grupo de americanos acabara de jogar as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki, uma terrível história que todos nós conhecemos, e os japoneses assinaram o armistício.

Mesma história: grande capacidade de produção, enormes estoques sem compradores. A substância foi reformulada como “herbicida” e descarregada nos agricultores. Depois, durante a guerra do Vietnã, as forças armadas americanas espalharam impiedosamente o que chamaram de "agente laranja" (e outras cores) sobre milhões de hectares de floresta tropical, pretendendo que fosse somente um desfolhante para tornar visíveis as forças inimigas. De fato, essas formulações continham grandes concentrações de 2,4,5-T que destruíam totalmente as florestas.

A indústria, querendo preservar em tempo de paz o que tinha sido um grande negócio em tempo de guerra, conseguiu dominar quase completamente a pesquisa agrícola a fim de redirecioná-la para os seus próprios objetivos. Conseguiu cooptar a pesquisa e extensão agrícola oficial, assim como escolas, e, fazendo lobby em favor de legislação ou regulamentação adequada e criando esquemas bancários de crédito “aparentemente” fácil, colocaram o agricultor numa posição em que dificilmente sobravam outras alternativas. Atualmente, o paradigma agroquímico é aceito quase sem questionamento nas escolas agrícolas na pesquisa e na extensão. A maioria dos agricultores acredita nele, e freqüentemente, quando marginalizada, culpa a si mesma por sua incapacidade em competir.

Tudo isso veio a existir não como uma conspiração deliberada por pessoas de mentes diabólicas – desenvolveu-se e estruturou-se de oportunismo em oportunismo. À medida que uma nova técnica, processo ou regulamentação dava vantagem a alguém ou a alguma instituição, a respectiva tecnologia era promovida e ideologicamente consolidada. Alternativas que não se encaixavam nas crescentes estruturas do poder eram combatidas, ignoradas ou desmoralizadas.

Agora, sim, no caso da biotecnologia na agricultura, controlada por grandes corporações transnacionais, parece que temos uma verdadeira conspiração cujos danos serão muito mais irreversíveis do que os sofridos até agora.

O principal problema, aqui, não é tanto se nossos alimentos se tornarão de qualidade inferior e até nocivos – apesar de isso poder vir a ocorrer -; novamente, trata-se de adicionar ainda mais estruturas de dependência, de dominação sobre os agricultores que ainda restam e uma limitação de escolhas para o consumidor.

 

A fantástica diversidade de cultivares que tínhamos e ainda temos hoje, depois das tremendas perdas causadas pela “Revolução Verde” durante as últimas décadas, é o resultado da seleção, consciente e inconsciente, por parte dos camponeses ao longo dos séculos e dos milênios. Pensemos somente na família das crucíferas – repolho, couve chinesa, rabanete, nabo, mostarda, couve-flor, brócolis, colza e muitos outros. Nenhum desses agricultores jamais solicitou patentes, registros ou certificação...

Agora, indústrias como a Monsanto querem que aceitemos sua manipulação dessa riqueza pré existente, como a soja Roundup-ready, com o argumento de que estão apenas dando prosseguimento e acelerando o processo, contribuindo assim para a solução dos problemas para alimentar a humanidade. Eles insistem mesmo que não há outra saída; mas sabem muito bem que existem outras alternativas, melhores, mais saudáveis, mais baratas.

Todo mundo sabe que a agricultura deve encontrar caminhos para se afastar dos venenos. Nós possuímos todos os conhecimentos necessários. Milhares de agricultores orgânicos em todo o mundo são prova disto. Com cultivares resistentes a herbicidas a indústria quer vender pacotes – semente mais herbicida -, obrigando o agricultor a usar este último mesmo que não o necessite, e ao usar o herbicida da respectiva empresa. No caso de cultivares como o infame gen terminator a conspiração é ainda mais óbvia. Com esse tipo de semente, eles nem precisam incomodar-se em solicitar patentes. Nada disso tem a ver com o aumento de produtividade – é a culminação do gradativo processo de desapropriação dos agricultores, para transformar os sobreviventes em meros apêndices da indústria. Isto agravará a marginalização, a desestruturação social, a devastação ambiental e a perda da biodiversidade na natureza e em nossos cultivos, e agravará o problema da fome.

Tradução

Grupo PET/CAPES/UNISINOS – Geologia

Bolsistas

Tatiana Rennau dos Santos, Fabrício M. Ely, Daniel P. Travassos, Paulo Martins Filho, Daniel B. Carvalho, Marina Heckeler, Tiago de Almeida, Rafael L. Dessart e Iberê G. Schier

Professor Orientador

Luiz Henrique Ronchi

Revisão da tradução com algumas atualizações

José A. Lutzenberger e Lilly Charlote Lutzenberger – março de 2000