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José Lutzenberger

O Absurdo da Agricultura Moderna - Dos Fertilizantes Químicos e Agrotóxicos à Biotecnologia - Continuação (5)

GAIA

A visão cartesiana que ainda domina grande parte do pensamento científico atual coloca-nos como observadores externos da natureza. Daí o conceito de "ambiente natural". O ambiente é visto como algo externo a nós, no qual estamos total e umbilicalmente imersos, é verdade, mas que não faz parte de nosso ser – uma dicotomia bem clara.

Temos hoje a cibernética e a sinergística, mas são raros, muito raros os que observam a natureza, e muito mais raros ainda os que lidam com o mundo dentro dos enfoques destas disciplinas. A doutrina que norteia a tecnologia moderna baseia-se, sempre, em visão reducionista. Os alvos são estreitos, o raciocínio é linear.

Mas o mundo não é assim. Façamos um "experimento mental" (Gedankenexperiment), como dizia Einsten: acaso seria possível um planeta cheio de vida, como o nosso, mas no qual ela estivesse constituída por animais, sem que existissem plantas? É claro que não. Porque não?

Mesmo aqueles animais que só se alimentam de carne, como o leão ou o gavião caramujeiro, que carne come? Eles comem carne de animais herbívoros ou de animais carnívoros que comeram herbívoros. A coisa sempre termina na planta.

Porque termina na planta? Muito simples: a planta sabe fazer uma coisa que animal nenhum consegue fazer. A planta domina a técnica – a “tecnologia”, como diríamos hoje – da fotossíntese. O que é fotossíntese? As plantas captam energia solar, retiram do ar gás carbônico que combinam com água para fazer substâncias orgânicas. Neste trabalho elas liberam oxigênio. A fórmula super simplificada é a seguinte:

CO2 + H2O + energia solar = CH2O + O2

Esta reação é muito interessante. Do lado esquerdo temos duas substâncias minerais simples, substâncias sem conteúdo energético, isto em nível molecular que é o nível no qual transam os seres vivos e o mundo mineral que os circundam. (em termos de física nuclear, que rege no interior do sol e das estrelas, ou nos infames reatores e bombas nucleares, a coisa seria diferente.) Da água e do gás carbônico não se pode tirar energia.

De vez em quando aparecem, nos jornais, histórias de inventores que teriam concebido motores que usam água como combustível. Ora, quem conhece as leis básicas da física e a direção das reações mais fundamentais da química sabe que isto é balela. Seria como fazer fogo com cinza em vez de fazê-lo com lenha.

Do outro lado da fórmula temos um carboidrato e oxigênio livre. CH2O é a fórmula super-simplificada dos açúcares, amidos, celuloses. Os carboidratos têm alto conteúdo energético. Poderíamos chamá-los de baterias químicas. Quando combinados, isto é, queimados com oxigênio, liberam calor. A reação da fotossíntese fornece as duas coisas – carboidratos e oxigênio! Os animais, para todas as suas atividades, necessitam de energia. A única fonte inesgotável de energia na Terra é a radiação solar – enquanto durar o Sol, mais uns cinco bilhões de anos. Se a vida dependesse de algo como o petróleo ou o carvão, já se teria acabado. Mas esta é uma consideração absurda, pois foi a vida que fez o carvão e o petróleo. Para algo captar a luz, é preciso ficar parado, apresentar grande superfície de captação. É o que fazem as plantas com suas folhas, sempre orientadas em direção ao Sol. Por sua natureza dinâmica, os animais não podem fazer isso. Servem-se das plantas, aproveitam as substâncias orgânicas por elas produzidas.

Vamos agora inverter nossa pergunta inicial:

Poderíamos imaginar um planeta com vida, mas sem animais, só com plantas? Não seria este um planeta bem mais harmônico, sem sofrimento? As plantas poderiam desenvolver-se livremente, sem ser pastadas, pisoteadas, consumidas, queimadas. Impossível.

A fórmula da fotossíntese mostra que o alimento principal das plantas é o gás carbônico. Mas ele é quase um gás raro na atmosfera. O nitrogênio, N2, constitui o grosso do ar, aproximadamente 78%. O oxigênio, O2, está próximo dos 21%. O resto é argônio e gases raros. Apesar de sua concentração ter sido drasticamente aumentada nos últimos duzentos anos pelas chaminés das indústrias, pelos escapes dos carros, pela destruição do húmus dos solos e pela devastação florestal, o gás carbônico constitui apenas 0,033%. Por que as plantas não esgotam rapidamente o gás carbônico?

São os animais que não permitem que as plantas morram de fome. Os animais dominam outra técnica muito semelhante a fotossíntese, quase igual, porém invertida: a respiração. Vejamos a fórmula simplificada da respiração:

CH2O + O2 – energia = CO2 + H2O

 

Exatamente o contrário da fotossíntese! Enquanto as plantas, armazenando energia, sintetizam substâncias orgânicas, liberando oxigênio, os animais, com oxigênio, queimam estas substâncias e usam a energia liberada no processo. Eles devolvem ao ambiente exatamente aquilo que a planta retirou (63).

Detalhe curioso, muito significativo: o catalisador da fotossíntese é a clorofila, um pigmento verde. Uma molécula bastante complicada do tipo que os químicos chamam de quelatos. Quelatos são moléculas grandes, em forma de gaiola, que seqüestram em seu centro um átomo de metal. No caso da clorofila, é um átomo de magnésio. O catalizador da respiração é a hemoglobina, também um pigmento, sendo este vermelho. O átomo central é o ferro. Conforme sabe todo aquele que estuda teoria das cores, vermelho e verde são cores complementares. Podemos agora desenhar um diagrama muito simples:

CO2 -> Planta -> O2 -> Animal -> CO2

A planta capta gás carbônico, entrega oxigênio; o animal consome esse oxigênio, devolve o gás carbônico. O círculo se fecha. A energia que toca este carrossel é a radiação do Sol.

Ora, planta e animal fazem parte da mesma unidade funcional, são órgãos de um organismo maior: não somente a planta está aqui para nós – nós também aqui estamos para ela!

As árvores, florestas, pradarias, os banhados, as algas microscópicas dos oceanos, são órgãos nossos, tão nossos quanto nosso pulmão, coração, fígado ou baço. Poderíamos chamá-las de “nossos órgãos externos” enquanto estes últimos são nossos órgãos internos. Mas nós somos órgãos externos delas! O Organismo maior é um só.

Mas a complementaridade e independência entre fotossíntese e respiração, entre sedentariedade e mobilidade, é apenas uma entre a infinidade de interações que integram a Grande Processo Vital. Vamos apenas lembrar algumas.

(63) Para que não protestem alguns, as plantas também respiram, mas o balanço é negativo para o gás carbônico.
 

A abelha e a flor: Em alguns casos, a dependência entre flor e animal fecundador é tão precisa que as duas espécies são exclusivas, evoluem juntas. É o caso das vespinhas das figueiras, que vivem dentro dos figuinhos. Cada espécie da grande família dos Ficus é fecundada por outra espécie de microimenóptero, exclusiva dela. Ou o beija-flor, que tem o bico certo para a orquídea certa; a mamangava, que tem dimensões e pêlos certos para a respectiva flor de maracujá.

Em alguns solos úmidos, extremamente ácidos e pobres em nutrientes, o mundo vegetal consegue avançar com pioneiras muito especializadas, certas plantas carnívoras. Não conseguindo retirar minerais do solo, elas se alimentam de insetos. Quando morrem, com o húmus daí resultante enriquecem o solo, preparando-os para outras plantas menos especializadas. A morte é fundamental no Grande Contexto.

Por que muitas plantas fazem frutos gostosos? A eficiência na fotossíntese proíbe às plantas viajar. Mas elas têm de conquistar território. O fruto é o preço que elas pagam, ao animal que o come, pelo transporte da semente. As grandes figueiras centenárias que enfeitam, ainda, campos e capões do litoral e da baixada central gaúcha são bem mais precisas. Na maioria das árvores, as sementes germinam na escuridão do solo da floresta. As mudinhas passam anos ou décadas de vida precária, lutando para chegar em cima. Em geral só conseguem quando, pela queda de um gigante decrépto, surge um novo espaço. A figueira faz o contrário. Ela nasce no alto de outras árvores. Passa anos de vida precária como epífita (64), alimentando-se do húmus dos galhos e troncos podres. Mas consegue enviar uma raiz ao chão. Lá chegando se fortalece, emite mais raízes, abraça e estrangula árvore sobre a qual nasceu e acaba transformando-se num novo gigante. Mas como chegou a semente lá em cima? A semente do figuinho só germina depois de passar pelo estômago de um pássaro. Caída ao chão, não germina – falta o tratamento dos ácidos digestivos que eliminam substância inibidora da germinação.

Teríamos de escrever um compêndio de muitos volumes se quiséssemos mostrar apenas parte do fascínio das simbioses, como a da saúva, da qual cada espécie tem seu tipo específico de fungo, cultivado no composto que ela faz com as folhas que corta.

(64) Planta que vive sobre outra planta sem ser parasita desta, como por exemplo, a orquídea e muitas bromélias.