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José Lutzenberger

O Absurdo da Agricultura Moderna - Dos Fertilizantes Químicos e Agrotóxicos à Biotecnologia - Continuação (6)

Até as criaturas que costumamos classificar como pragas ou parasitas tem sua função. A moderna agronomia não estaria trabalhando com enxurradas de venenos senão tivessem esquecido que a "praga" só ataca hospedeiro doente desequilibrado, desajustado. Atacando somente os indivíduos marginais dentro das populações, os organismos parasitas constituem-se em mais um crivo da seleção natural, que esmera constantemente as espécies, faz surgir sempre mais diversidade, sempre mais sinergismo, sempre mais ciclos e epiciclos de reciclagem dos recursos dos quais se serve a Vida.

E os milhões de espécies de bactérias, cada uma com sua função específica? Sem elas não haveria digestão nem decomposição, não funcionaria a reciclagem dos nutrientes minerais. Plantas e animais, quando mortos, ficariam como múmias, a obstruir o espaço dos vivos. Sobre o solo estragado, a fome mataria os sobreviventes. As plantas tampouco teriam acesso ao nitrogênio do ar, indispensável à síntese das proteínas. Mas, assim como existem bactérias que ajudam as plantas ao obter nitrogênio, há as que devolvem nitrogênio ao ar, mantendo, assim, um equilíbrio de fluxo estável. Outras bactérias, também o solo, dão à planta acesso ao fósforo e demais nutrientes minerais, especialmente os micronutrientes, indispensáveis à saúde das plantas. O fósforo é indispensável no código genético, aquela genial escrita bioquímica que, em nível molecular, fixa, registra, perpetua e, pelas mutações, enriquece a sabedoria da evolução orgânica e que, em cada indivíduo vivo, desde o óvulo fecundado até a morte, comanda o desenvolvimento e o funcionamento do organismo.

E todos aqueles seres maiores que, no solo ou sobre ele, preparam o trabalho das bactérias, mastigando, roendo, dilacerando, desmanchando, transportando os restos dos organismos mortos: os fungos, protozoários, colêmbolas, nematóides, planárias, insetos – entre eles, sociedades altamente estruturadas como as formigas e térmitas (cupins) -, ácaros, aranhas, escorpiões, centopéias e minhocas, e mesmo criaturas maiores, como moluscos e até mamíferos, como tatus e topeiras? Sem eles as bactérias passariam muito trabalho, e os ciclos vitais seriam muito lentos.

A vida jamais poderá ser compreendida nos termos pretendidos por Descartes, que nos seres vivos, com exceção dos humanos, via simples máquinas, relógios, ou autômatos – robôs, como diríamos hoje.

 

Mas esta visão ainda está bem viva, muito viva, muito viva, por exemplo, nos laboratórios de toxicologia da indústria química, que submete milhões de criaturas indefesas – macacos, cachorros, gatos, ratos, porquinhos-da-índia e outros, por ela simplesmente classificados de “cobaias” – a torturas indescritíveis para, em enfoque ridiculamente bitolado, estabelecer, entre outras abstrações indecentes, a “dose diária admissível” dos venenos com que fazem seus grandes negócios. Esta visão – é triste ter de dizê-lo – é comum em muito curso e aula de biologia e nas modernas fábricas de carne e ovos, eufemisticamente chamadas de “criação confinada” e “aviários”. A vida tampouco poderá ser compreendida apenas dentro da visão da moderna biologia molecular, com suas abordagens ultra-reducionistas e com seu “dogma central”, que postula ser a incrível diversidade de formas e funções resultado apenas da seleção natural de mutações ao acaso.

Só uma visão sistêmica, unitária, sinfônica nos poderá aproximar de uma compreensão do que é nosso maravilhoso planeta vivo.

Nunca existiram tantos biólogos como hoje. As "ciências biológicas" – muito significativo este plural – ocupam cada vez mais especialistas. Na indústria conheci excelentes entomólogos que só pesquisavam métodos químicos para matar e mesmo erradicar insetos. Nas estações experimentais agrícolas, são comuns aqueles pesquisadores que passam a vida relacionando estatisticamente a reação de certas plantas a determinados tratamentos químicos. Há os que só estudam o efeito de determinados poluentes sobre certos organismos aquáticos. Quando observo o trabalho dos biólogos moleculares, que se aprofundam sempre mais na dança das macromoléculas dos gens nos cromossomos e no citoplasma, pouco ligando para o organismo como um todo, vem-me a imagem de alguém que, querendo conhecer e compreender os magníficos sistemas ferroviários europeus, por exemplo, a Bundesbahn, na Alemanha, se limitasse a estudar, com o microscópio, as letras nas tabelas dos grossos manuais de horários dos trens, passando a vida fazendo nada mais do que isso.

Não deixa de ser muito interessante o que toda essa gente descobre e cataloga, e por isso esses trabalhos são muito importantes, mas, desvinculados da visão do todo, nenhuma orientação ética nos proporcionam. Aliás, é dogma corrente em círculos científicos modernos que a ciência nada tem a ver com valores, com ética, com política, com religião...

 

Sobram biólogos, mas torna-se cada vez mais difícil encontrar naturalistas. Naturalistas como eram Darwin, Haeckel, Humbold, Julian Huxley; como alguns dos meus mestres: Allarich Schulz, entre nós, e seu irmão Harald; Croizat e Vareschi, na Venezuela; o grande Ruschi no Espírito Santo, Sioli na Amazônia e a hoje mitológica figura que é Balduíno Rambo, quase totalmente esquecido de seus conterrâneos gaúchos, um dos grandes espíritos que esta terra contemplou e venerou!

É esta a diferença entre biólogo convencional, apenas científico e o naturalista. A diferença está na veneração! Para o naturalista, a Natureza não é simples objeto de estudo e manipulação, é muito mais. Ela é algo divino – não temos medo desta palavra -, é sagrada e nós, humanos, somos apenas parte dela. Daí a atitude do naturalista não poder jamais ser atitude de agressão, dominação, espoliação. O naturalista procura a integração, a harmonia, a preservação, o esmero, a contemplação estética. Ele está no mesmo nível do artista, do compositor, maestro, escultor, pintor, escritor, mas trabalha dentro da disciplina científica, em diálogo limpo com a Natureza.

Quanto mais o naturalista se maravilha diante das incríveis interações e complementações em termos de átomo, molécula, célula, organismo, espécie, população, comunidade e ecossistema, mais ele procura chegar à síntese. Dentro da visão ecológica surgiu, assim, o conceito de ecosfera, que é o conjunto e a interação de todos os ecossistemas, entre si e com o mundo mineral.

A biosfera, o conjunto dos sistemas vivos, está íntima e inseparavelmente integrada na litosfera e na atmosfera. O todo constitui uma unidade funcional, um organismo à parte, um sistema dinâmico integrado, equilibrado, auto-regulado.

É ainda enfoque comum que a vida existe neste planeta e nele se mantém até hoje (já são pelo menos três bilhões e meio de anos desde seus primeiros suspiros nos oceanos primordiais) porque a Terra, entre os planetas do nosso sistema solar, reúne condições muito especiais: tamanho e rotação à distância certa de uma estrela de tamanho certo. Daí o âmbito certo de temperatura propícias aos processos bioquímicos. No Universo predominam temperaturas extremas, desde quase zero absoluto até (-) 273 graus centígrados no espaço intersideral, por volta de 6.000 graus centígrados na superfície do Sol, dezenas de milhões de graus em seu centro, centenas de milhões no centro de estrelas e até bilhões de graus nas explosões das novas e supernovas.

 

Mas os processos vitais da química do carbono só funcionam acima de zero grau centígrado, e se estropiam antes de chegar aos 100 graus centígrados. Somente algumas espécies de algas cianofíceas e algumas bactérias conseguem viver em águas com temperaturas próximas de 70 graus centígrados, em fontes térmicas; alguns fungos e actinomicetos ainda vivem bem aos 60 graus centígrados nos compostos dos agricultores e jardineiros orgânicos.

Por muito tempo a Terra escapou ao destino de Vênus ou de Marte, nossos vizinhos mais próximos. De Júpter, Saturno e mais além, nem falar. É sabido que em Vênus a temperatura média de superfície está por volta de 400 graus centígrados. Não há substância orgânica que resista. Os oceanos não resistiram, evaporaram. Já em Mercúrio, mais próximo ao Sol do que Vênus, nem a atmosfera resistiu: se foi. Em Marte, as temperaturas de meio-dia no verão estão próximas dos 40 graus abaixo de zero. O gás carbônico está nas calotas polares, que são de gelo seco. Oceanos, nem pensar.

De fato, a Terra está em condições muito especiais, não somente quanto à temperatura. Se fosse uma bola de gás, como Júpter, ou bola sem ar nem água, como a Lua, de nada adiantariam temperaturas certas. Fundamental para a vida é também o confronto dos três estados físicos: sólido, líquido e gasoso. Sem este confronto não haveria reciclagem, como aquela dos ciclos interligados do carbono e oxigênio – não haveria os grandes e pequenos ciclos biogeoquímicos.

Para que não se apague, a vida exige ainda outras condições imprescindíveis: atmosfera de composição certa, salinidade certa nos oceanos, âmbito certo de PH (medida de acidez e alcalinidade). Devem estar presentes também pelo menos uns 25 dos mais de cem elementos da tabela de Mendeleiev.

Quando a NASA preparava as primeiras naves não-tripuladas que desceram em Marte, poderia ter economizado o grande custo dos dispositivos automáticos que recolheram e analisaram solo do planeta para verificar se continha alguma forma de microvida, mesmo muito mais simples do que as mais simples de nossas bactérias. Janmes Lovelock, um dos raros cientistas que hoje consegue sobreviver como consultor autônomo, trabalhava então para a NASA.