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José Lutzenberger

O Absurdo da Agricultura Moderna - Dos Fertilizantes Químicos e Agrotóxicos à Biotecnologia - Continuação (7)

Ele propôs que bastaria estudar melhor a atmosfera de Marte ou de qualquer outro planeta que suscitasse dúvidas quanto à existência de alguma forma de vida. O importante seria verificar se a atmosfera, em sua composição, se encontraria próxima ou longe do equilíbrio químico estático. Bastariam observações espectroscópicas. Ele não foi escutado e não se encontrou vida. Não se poderia.

O que aconteceria com a atual atmosfera da Terra se a vida desaparecesse? Sua composição parece violentar as leis da química. Sem o reabastecimento da fotossíntese, o oxigênio não duraria mais do que uns poucos milhões de anos. Seria consumido na oxidação das rochas e do nitrogênio. Este acabaria nos oceanos, em forma de nitratos. Os mares não mais teriam o pH próximo de neutro, propício à vida – seriam um caldo corrosivo, altamente ácido. Uma vez que os processos eruptivos estão longe de ter chegado a seu fim, voltaria a elevar-se a concentração de gás carbônico. A Terra acabaria quase tão quente quanto Vênus. Os oceanos? Evaporados! O vapor d’água na alta atmosfera seria dissociado pela ação direta dos raios ultravioletas e da radiação cósmica. O hidrogênio se perderia no espaço interplanetário, o oxigênio liberado oxidaria os restos de nitrogênio. O ácido nítrico exporia mais rocha crua, e o oxigênio todo se fixaria em forma de óxidos. Levaria mais tempo do que a fixação do oxigênio da primeira fase, mas tempo é o que menos falta à Natureza. Uma atmosfera como a que temos não pode existir num planeta morto.

Portanto, um bom químico que olhasse a Terra de longe, suficientemente longe para não discernir florestas, cidades, estradas, somente analisando espectrogramas de nossa atmosfera, dar-se-ia logo conta de que aqui acontece algo de extremamente interessante. A atmosfera da Terra está muito longe de um equilíbrio químico estático. Este não é o caso de Vênus, Mercúrio, Júpiter, Saturno e os demais, que parecem perfeitamente normais quimicamente. Tremendamente fascinado ficaria esse químico?

Lovelock, em colaboração com Lynn Margulis (65), preocupado com a não-aceitação de sua proposta à NASA, e pensando mais profundamente no caso, inverteu o enfoque convencional, segundo o qual a vida existe na Terra porque a Terra reúne e mantém as condições certas. Se a Terra oferece condições adequadas, é porque a Vida assim as mantém!

(65) Lynn Margulis é a cientista americana, microbiótica, que postulou outra síntese fascinante: a teoria segunda a qual as células dos organismos superiores, chamadas eucarióticas, são composições simbióticas nas quais várias células simples/procarióticas, sem núcleo delimitado nem organelas e núcleo delimitado. Outra maravilhosa complementação!
 

Vejamos o caso da temperatura propicia aos processos vitais. Em algum momento entre quatro e três e meio bilhões de anos atrás, a Terra já estava consolidada, as lavas solidificadas, os oceanos formados, a temperatura certa. O Sol era entre 15 e 20% menos quente do que hoje, fato estabelecido, porque o Sol é uma estrela bem normal da "seqüência geral" cuja evolução é perfeitamente conhecida e calculável pelos cosmólogos. Se a Terra não era bola de gelo é porque ainda tinha muito calor próprio e porque a atmosfera de então propiciava um forte efeito estufa. Ela estava constituída principalmente de gás carbônico, metano e amoníaco, com restos de hidrogênio. A quase totalidade do hidrogênio da primeira atmosfera já se tinha perdido. Esta atmosfera era de origem eruptiva.

Naquela atmosfera reducente começou, e só nela podia começar, a vida. Se numa atmosfera oxidante como a atual surgissem as primeiras substâncias orgânicas, elas seriam rapidamente destruídas pela oxidação. Só numa atmosfera reducente elas podem acumular-se. Baseando-se nas idéias sobre a origem da vida, de Oparin, Miller, no laboratório de Urey, em genial experimento demonstrou como, em balão de vidro contendo água com sais minerais e uma atmosfera como aquela, fazendo incidir descargas elétricas, após pouco tempo apareciam carboidratos, aminoácidos e até nucleótidos. Estas são as peças básicas da química da vida. Os oceanos devem ter-se transformado num caldo de substâncias orgânicas, cada vez mais rico e sempre mais complicado. Alguns cientistas falam do "consomê primordial".

A partir do metano e amoníaco da atmosfera, com a energia das descargas elétricas e da radiação, formava-se sempre mais material orgânico. Com isso deminuía o efeito estufa. Ótimo, o Sol estava lentamente ficando mais quente.

Deve ter levado pelo menos um bilhão de anos até que a evolução, inicialmente só bioquímica, acabasse dando origem à primeira célula de complexidade próxima à de uma bactéria. Dali em diante, os grandes traços da evolução orgânica são conhecidos. Os primeiros organismos unicelulares só podiam alimentar-se da matéria orgânica existente nos oceanos. A sopa começou a autoconsumir-se. Havia perigo de extinção.

 

Não demorou e, por volta de uns dois e meio bilhões de anos atrás veio a solução.

A fotossíntese permitiu à vida sintetizar sua própria matéria orgânica, captando diretamente a energia solar. Era a solução, mas representava um tremendo perigo: a primeira grande crise de poluição! O oxigênio liderado na fotossíntese, para a totalidade dos seres então existentes, todos anaeróbios, era veneno mortal. Como seria se hoje aparecesse e proliferasse nos oceanos um organismo que, em processo semelhante à fotossíntese, liberasse cloro? Seria o fim de todas as formas superiores de vida. A vida conseguiu superar aquela crise. As formas de vida anaeróbia sobrevivem até hoje, no lodo dos banhados, no fundo da lama dos oceanos e nos intestinos dos animais superiores; são as bactérias metanogênicas, entre outras, tão úteis nos biodigestores de biogás. A poluição virou vantagem. A atmosfera se inverteu de reducente para oxidante, tornando possível a maravilha da vida animal, que levou até o cérebro humano e o dos delfins.

Mas o Sol continuava ficando mais quente. O efeito estufa do metano e amoníaco já quase desaparecera, sobrando o gás carbônico. Se até hoje temos temperaturas agradáveis – o registro fóssil, pela determinação da relação entre oxigênio 16 e oxigênio 18, mostra que as médias se mantiveram sempre próximas às atuais -, é porque a Vida, mais uma vez, achou solução.

Surgiram, nos oceanos, organismos como cocolitos e outros micro-organismos; surgiram corais, moluscos e outros animais maiores, que fazem carapaças ou estruturas de carbonato de cálcio e magnésio. Imensas jazidas foram acumuladas. A movimentação tectônica ergueu, mais tarde, muitas delas. Nas falésias dramáticas das Dolomitas, no Tirol, e em milhares de montanhas nos Alpes, Atlas, Andes e demais cordilheiras, estão à vista as estratificações. Em algumas delas, de um só golpe de vista podemos observar milhões de anos de paciente trabalho de deposição. Um dos espetáculos mais fantásticos deste processo é o Grand Canyon. Foram, assim, retiradas da atmosfera gigantescas quantidades de gás carbônico. Mas não bastou a fixação deste gás em forma de carbonatos. Outros organismos tiveram de ajudar no trabalho. Surgiram as primeiras grandes florestas, ainda de plantas no nível evolutivo de musgos e samambaias, de licopódios, cicadáceas, palmeiras e muitas formas hoje extintas – isto no Período Carbonífero, uns trezentos milhões de anos atrás.

Foram depositadas gigantescas jazidas de carvão mineral e lignito. Em banhados mais recentes cresceram as turfeiras do norte da Europa, do Canadá e da Sibéria. Na Escócia é fácil observar como ainda hoje elas crescem.

Quanto ao petróleo e o gás natural, feitos por bactérias, parece haver ainda discordância quanto à época em que se formaram; possivelmente isto aconteceu ao longo de todo o processo evolutivo. Parte dele ser remanescente do caldo primordial.

Diminuindo sempre a concentração do gás carbônico na atmosfera e, com isto, o efeito estufa, foi possível manter constante e em nível apropriado o âmbito de temperaturas, apesar do aumento contínuo do calor do Sol. Não fosse este paciente e coordenado trabalho de bilhões de criaturas através de bilhões de anos, a Terra já seria outra Vênus. Assim como os organismos dos mamíferos e aves têm um mecanismo homeostático (equilíbrio auto-regulado) que mantém a temperatura do corpo independente da temperatura externa, também a ecosfera tem sua homeostase térmica própria.

Só quem alcança esta perspectiva compreende o atrevimento da sociedade industrial moderna ao considerar o petróleo e o gás natural, o carvão, o lignito e a turfa como simples "combustíveis fósseis".

Longe desta visão imediatista suicida, e com a veneração do verdadeiro naturalista, Margulis e Lovelock concluíram, diante grandiosidade incomensurável do quadro, que o conceito de ecosfera precisava ser ampliado.

O novo conceito proposto, que começa a ser aceito pelos grandes ecólogos e que já conquistou a vanguarda do movimento ecologista, é o conceito de G A I A.

A ecosfera não é um simples sistema homeostático, automático, químico-mecânico. O planeta Terra é um sistema vivo, um organismo vivo com identidade própria, o único de sua espécie que conhecemos. Se outras Gaias existem no Universo, em nossa ou em outras galáxias, serão todas diferentes. Um sistema vivo tão destacado merece nome próprio. O nome GAIA foi proposto por Willian Golding, escritor, e lançado por Lovelock e Margulis. É o nome que os antigos gregos, em sua cosmovisão bem mais holística do que a nossa, davam à deusa Terra.

É claro que a Terra não é um ser vivo como uma planta ou um animal individual, que nascem, crescem, se reproduzem, envelhecem e morrem, mas é um sistema vivo como o é um bosque, um cerrado ou banhado, porém num nível de organização superior ao destes.