Logo da AAO(30 anos)

José Lutzenberger

O Absurdo da Agricultura Moderna - Dos Fertilizantes Químicos e Agrotóxicos à Biotecnologia - Continuação (8)

Tornou-se comum a imagem da Terra como uma nave espacial. É uma figura boa diante da visão convencional, na qual a Terra é apenas substrato ou palco para a vida, e a vida para nós, humanos, não passa de recursos – haja vista nossa atitude diante da Amazônia. Mas a imagem da nave espacial engana. Uma nave tem passageiros. Em GAIA não há passageiros: tudo é, e todos somos, GAIA. Usando outra imagem, não teria sentido dizer que meu coração ou meu cérebro são passageiros meus. Até a parte mineral, os continentes, as rochas – do ar e da água já não precisamos falar – são parte integrante de GAIA, como o caracol ou a concha o são do molusco. Parece que a deriva dos continentes, causa do vulcanismo e do crescimento de novas montanhas, enquanto as velhas se desgastam, é pelo menos influenciada também pela sedimentação no fundo dos oceanos. Os radiolários e as diatomáceas, com suas belíssimas carapaças de sílica, junto com aqueles outros organismos que depositam cálcio, incluindo certas algas marinhas, fazem deposições de quilômetros de espessura no fundo dos mares. Com isto se altera o efeito isolante para o calor do magma e alteram-se as condições de pressão, surgindo aqueles fluxos que movimentam as placas continentais. Esta é a reciclagem que acaba devolvendo aos continentes os nutrientes perdidos para os oceanos, dando-lhes rochas novas – um ciclo que leva uns duzentos milhões de anos.

No organismo de GAIA, nós, humanos, somos individualmente como células de um de seus tecidos – um tecido que hoje se apresenta canceroso, mas que oxalá ainda tenha cura. Já somos os olhos de GAIA. Com os olhos dos astronautas e nas imagens de satélite, GAIA, pela primeira vez, viu-se a si mesma em toda a sua singela beleza – brancos véus lentamente espiralando, ora tapando, ora revelando o azul profundo dos oceanos, o amarelo dos desertos, as diferentes tonalidades de verde, ora confundindo-se com os pólos.

Poucos, pouquíssimos, dão-se conta do fato monumental – não somente em termos de história humana, mas em termos de história de vida – que representa aquela primeira foto de GAIA, ou aquela outra de meia-GAIA subindo solitária no firmamento, negro como piche, da Lua!

Este é um fato totalmente novo! Um momento decisivo na vida de GAIA. Uma situação faustiana. O homem, conhecendo demais, talvez cedo demais, cego de orgulho e com gula incontrolável, desencadeou um processo de demolição que supera todas as crises anteriores.

 

Como vimos no início, ao apontar a hoje baixa concentração de gás carbônico na atmosfera, a sociedade industrial, contrariando as tendências de GAIA , já está interferindo significativamente num de seus importantes sistemas de controle. A concentração antes do alastramento da industrialização estava próxima de 0,025%. Já conseguimos aumentá-la uns 30% em menos de duzentos anos, uma fração de segundos na escala de tempo de vida de GAIA. Talvez a razão pela qual ainda não estamos sentindo conseqüências muito graves seja só o fato de, também cegamente, estarmos concomitantemente interferindo em outros mecanismos de controle que têm efeito contrário. Estamos aumentando, no ar, a concentração de aerossóis (66) e das poeiras que, refletindo radiação solar, devolvem energia ao espaço.

Aliás, nesta questão do controle térmico pela diminuição da concentração do gás carbônico, GAIA já está chegando a um limite. Essa concentração já não pode baixar muito mais, por duas razões muito simples: se baixar muito mais, as plantas acabarão morrendo á míngua: para elas, o CO2 é o nutriente principal – e só não é mencionado nos manuais de adubação dos agrônomos porque está gratuitamente no ar e ainda não dá para fazer negócio com ele; a outra razão é que, em termos de diminuição de efeito estufa, já não dá para ganhar quase nada com a concentração baixa como está. Talvez seja esta a causa da crise climática do Pleistoceno. Nesse último período geológico, durante os últimos três milhões de anos, menos de um dia na vida de GAIA, tivemos as quatro grandes eras glaciais. Quando um sistema homeostático bem equilibrado começa a se desequilibrar, antes de entrar em colapso ou se reequilibrar é comum aparecerem vibrações irregulares, com exageros para ambos os lados. Algo deste tipo pode ter acontecido no Pleistoceno. Lovelock gostava de dizer que GAIA estava com febre.

Entretanto, após o fim da última grande glaciação, parece que GAIA já tinha encontrado nova solução (67).

(66) Não confundir com clorofluorcarbonos (CFCs), que em geral são comumente chamados de aerossóis por serem usados desta forma. Aerossol se refere á suspensão de pequenas partículas líquidas e/ou sólidas num gás, como o é a nuvem.
(67) Ao usar este tipo de linguagem, não queremos sugerir que GAIA tome decisões conscientes; trata-se apenas de uma pequena liberdade poética – queremos suscitar emoção.
 

De lá para cá, um período muito curto, uns quinze mil anos apenas, minutos na cronologia de GAIA, alastraram-se as florestas tropicais úmidas no que hoje chamamos Amazônia, Congo, Índia, Sri Lanka, Bangladesh, Indochina, Indonésia, Oceania, Austrália. As florestas tropicais úmidas têm uma fantástica evapotranspiração. Da água da chuva que sobre elas cai, em menos de dois dias até 75% são devolvidos á atmosfera, formando novas nuvens que voltam a produzir chuva mais adiante. Como mostrou Salati (68), as chuvas que caem nas faldas orientais dos Andes estão constituídas de água que, em seu caminho desde as primeiras nuvens dos ventos alísios na costa Atlântica, caiu e voltou ás nuvens entre cinco e sete vezes. As florestas tropicais úmidas estão sobre o Equador; sua influência climática se exerce sobre ambos os hemisférios, fato hoje lindamente ilustrado, como num filme, nas imagens móveis de satélite nos institutos meteorológicos. Ora, estas grandes florestas, para o clima global, são gigantescos aparelhos de ar condicionados. Convém lembrar que as comunidades florísticas e os ecossistemas das atuais florestas tropicais úmidas são muito antigos, tendo evoluído nos últimos duzentos milhões de anos; o que é novo é sua presente extensão.

Mais uma vez, o homem moderno está contrariando os desígnios de GAIA. Em toda parte estão sendo demolidas as florestas tropicais úmidas, num ritmo que na década de 1980, chegava a alcançar cem mil quilômetros quadrados ao ano. No caso da Amazônia, se for devastado o estado do Pará, coisa que parece certa até logo após o ano 2000, poderá, quem sabe, ser desencadeado um processo de colapso da grande floresta, pois ela faz seu próprio clima. Onde a floresta desaparece e é substituída por solo nu ou capoeira rala, no lugar da evapo-transpiração o solo torrado produz ventos ascensionais quentes. As nuvens se dissolvem e deixa de cair chuva mais adiante. Mais a hiléia só pode sobreviver com chuvas copiosas.

Sobrarão recursos para GAIA? Ou vamos incapacitá-la? Desde 1975, o clima anda meio caótico no mundo inteiro. Será mau augúrio?

Por enquanto, a intenção expressa da sociedade de consumo é continuar demolindo. A ordem é "desenvolvimento" a qualquer custo, quer dizer, tudo o que GAIA fez será substituído por algo feito pelo homem com o enfoque imediatista, sem levar em conta o sistema de controle de GAIA.

(68) Climatólogo da Universidade de Piracicaba, SP, foi chefe do INPA-Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.
 

Vejamos um raciocínio muito usado por aqueles que querem enriquecer na devastação da Amazônia. Eles atribuem aos defensores da floresta a afirmação – metafórica – "A Amazônia é o pulmão do mundo". Interpretam-na como sinônimo de fábrica de oxigênio. Desde quando pulmão produz oxigênio? Pulmão consome oxigênio. Citam então, corretamente, ecólogos que mostram que a grande floresta consome exatamente a mesma quantidade de oxigênio que produz. Portanto, segundo eles, não há problema – não vamos morrer asfixiados se a hiléia ficar reduzida a alguns pontinhos no mapa, que serão então chamados de "reservas ecológicas" ou "bancos genéticos".

Mas, se a Amazônia ou qualquer outro ecossistema em equilíbrio produzisse muito mais ou muito menos oxigênio do que consome, GAIA já teria morrido. GAIA, por uma razão muito importante, desde que inverteu a atmosfera de reducente para oxidante soube manter sempre a concentração de oxigênio por volta dos 20%. Concentrações mais baixas tornariam difícil a vida animal. Uma vez que tudo está ligado com tudo, todas as formas de vida sofreriam. Por outro lado, concentrações superiores seriam ainda mais perigosas. Facilmente levariam a um holocausto. Já em 25%, até folhas verdes, mesmo molhadas, queimariam como papel. Qualquer raio acabaria com toda uma Amazônia. É por isso que no avião, quando baixam as máscaras de oxigênio, fica terminantemente proibido fumar. Concentração muito alta de oxigênio poderia, talvez, até levar a um incêndio da própria atmosfera. Quando os físicos de Los Alamos dispararam a primeira bomba nuclear, sabendo que as temperaturas alcançariam milhões de graus, tinham um medo louco, justamente disto. Assim mesmo, bons aprendizes de feiticeiros que eram, não se contiveram. Felizmente nada aconteceu (69).

O equilíbrio aproximado entre produção e consumo de oxigênio, sozinho, não seria suficiente. Sempre há os ecossistemas em fase inicial de sucessão ecológica que podem produzir muito mais oxigênio do que o que consomem. Os grandes incêndios, por outro lado, nada produzem, só consomem. Inevitáveis seriam flutuações que poderiam tornar- se perigosas.

(69) Este texto foi escrito em 1986. Recentemente me contou um físico que o que eles temiam não era a combustão química da atmosfera, e sim a combustão nuclear do hidrogênio da água da atmosfera. Eles eram bons físicos, mas não entendiam de química.