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José Lutzenberger

O Absurdo da Agricultura Moderna - Dos Fertilizantes Químicos e Agrotóxicos à Biotecnologia - Continuação (9)

Mas GAIA, com timoneiros precisamente ajustados, controla os grandes e pequenos ciclos biogeoquímicos.

Começamos recentemente a descobrir estes sistemas, No caso do ciclo do oxigênio está envolvido o metano, hoje gás raro na atmosfera, produzido pelos organismos que conseguiram sobreviver à inversão da atmosfera, retirando-se para os lodos anaeróbios e para o intestino dos animais. O homem já se encarrega de dar um jeito nisso também. São poucos os banhados no Planeta que não estão ameaçados de "saneamento".

Muito poderia ser dito sobre os demais gases menores, como o ozônio, os óxidos de nitrogênio e de enxofre, do amoníaco, do monóxido de carbono e dos compostos de metila, cada um com sua função definida. Alguns destes ciclos, todos acionados por seres vivos, especialmente microorganismos no mar e no solo, ou por determinadas algas marinhas nas plataformas continentais, têm a ver com outro importante equilíbrio vital – a manutenção da salinidade dos mares em aproximadamente 3%. A origem dos sais no oceano é a meteorização das rochas. Os óxidos insolúveis acabam formando solo ou, quando são levados pela erosão, vão formar sedimento no fundo do mar; mas os sais solúveis – quando não retidos nos processos vitais – são todos levados ao mar, onde ficam em solução, especialmente o cloreto de sódio. Mas a evaporação na superfície dos mares, que faz as nuvens, só leva aos continentes água destilada. Como se explica, então, que o oceano já não esteja tão morto como o Mar Morto no Jordão? Esta é outra linda história que começa a ser desvendada.

Será mesmo um acaso tudo isto, como quer a ciência moderna, não aceitando fins, alvos, intenção no comportamento do Universo e postulando apenas acaso no surgimento da Sinfonia da evolução orgânica, este processo caprichoso que deu origem a milhões de espécies – nós entre elas – de animais, plantas, fungos, protozoários, bactérias, fagos e vírus, em interação multifacetada unitária, uma integração sinérgica que nossas melhores cabeças cibernéticas, com suas baterias de computadores, jamais poderiam ter concebido, e cuja beleza a ecologia apenas vislumbra?

Por isso, não pode ser verdade aquela idéia fundamental atribuída a Darwin de que na seleção natural vence sempre o mais forte, sucumbindo os mais fracos – idéia que muito agrada aos que têm ambição de poder, de controle, de dominação.

 

Quanto mais aprofundamos na ecologia, mais nos damos conta de que sobrevive o mais ajustado, o que mais harmoniza, o que mais ressonância tem com a Sinfonia, entre eles criaturas tão delicadas, tão frágeis e vulneráveis como a orquídea e o beija-flor, a sarracenia e a perereca.

A integração é mesmo anterior ao nascimento do sistema solar, que já nasceu um bilhão de anos antes do nascimento de Gaia. Não tivesse o Sol, com sua corte de planetas, luas, asteróides e cometas, ao condensar-se de nuvens de gases intersiderais, captado também certa porção de cinzas da explosão de alguma super nova ocorrida centenas de milhões ou alguns bilhões de anos antes – o Universo tem idade para isso -, não teríamos aqui todos os elementos que formam montanhas, mares e ar e dos quais a vida não pode prescindir: os planetas seriam simples bolas de gás, principalmente hidrogênio e hélio.

Será mesmo acaso tudo isto? Que divino acaso!

Se bem que na biologia tudo pareça ser intencional – o ovo não teria sentido, não fosse dar origem ao pinto -, a maioria dos biólogos tem horror a qualquer sugestão de alvo, de finalidade preconcebida no maravilhoso processo da evolução orgânica. Tom Berry, que mereceria ser chamado de "o teólogo da ecologia", costuma dizer: "It is not intentional, it is not directed, it is creative" ("A coisa não é intencional, não é dirigida, é criativa").

Mas o que vamos fazer primeiro: desvendar esta maravilha ou continuar como um câncer no organismo de Gaia, devastando, fazendo extinções em massa, toxificando até que não haja volta?

Quando daquela ameaça mortal que foi a crise da poluição do oxigênio, que quase extinguiu as formas de vida então existentes, Gaia, em vez de sucumbir, soube tirar proveito. Transformou um inimigo feroz em poderoso aliado, fator de mais vida, de vida mais complexa, mais perfeita, mais diversificada, mais harmônica – uma estonteante transcendência!

Estaremos, quem sabe, 2,5 bilhões de anos mais tarde – o tempo necessário para que evoluísse uma das coisas mais complicadas que GAIA até agora produziu: o cérebro humano – diante de uma nova transcendência?

Neste momento, nosso comportamento canceroso representa um perigo mortal para GAIA. Mas isto não é inevitável.

 

Se soubermos usar sabiamente o potencial intelectual que ela nos propiciou, assim como a fabulosa tecnologia que daí surgiu, poderemos até mesmo assumir o controle consciente de GAIA. Sistema nervoso autônomo de GAIA já existe: seríamos a massa cinzenta da massa de GAIA. A moderna eletrônica, com seus computadores sempre mais perspicazes e comunicação global instantânea por satélite, já começa a estruturar algo que quase poderia tornar-se um meta-sistema-nervoso planetário. Mas o conteúdo desse fluxo nervoso terá de mudar. Se conseguirmos esquecer nossas querelas, acabar com a prostituição da ciência para a demolição da vida e para os delírios da corrida armamentista e dá “guerra nas estrelas”, se conseguirmos colocar nosso gênio em ressonância com Gaia, só o futuro poderá dizer das alturas alcançáveis.

Entretanto, a continuar a cacofonia atual, o desastre será total. Para nós! Talvez nem tanto para Gaia. Gaia tem muitos recursos, tem muito tempo. Com novas formas de vida, encontrará saída. Sobram-lhe ainda uns 5 bilhões de anos até que o sol em sua penúltima fase evolutiva, ao tornar-se "gigante vermelho", venha a expandir-se até aqui, antes de apagar-se lentamente. Gaia será reciclada nos gases incandescentes do sol, assim como cada um de nós será reciclado no solo.

E as conseqüências éticas, filosóficas, religiosas de tudo isto? Pena que as igrejas não atinem. O índio atinava!

José A. Lutzenberger – março de 1986

Revisão e ampliação: setembro de 1994

JAL/am.-25.01.96