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O crescente mercado global de orgânicos - Brasil é um dos países com maior superfície convertida
25/08/2013 18:51
O crescente mercado global de orgânicos - Brasil é um dos países com maior superfície convertida
(matéria do portal MERCADO ETICO 16/08/13)

A ideia de produção e mercado formal de orgânicos iniciou-se nos anos 1920, quando foram lançados na Europa Central os alimentos biodinâmicos, derivados da Antroposofia. Até o início da 2ª Grande Guerra, quando a prática foi proibida pelo nazismo, havia mais de mil fazendas biodinâmicas na Alemanha, que seguiam princípios e critérios de produção claros para o que propunham. A biodinâmica renasceu na década de 1950 sob a marca Demeter e hoje está presente em mais de 40 países.

Dos anos 70 em diante, com a fundação da Federação Internacional de Movimentos de Agricultura Orgânica (IFOAM), essa forma de agricultura globalizou-se rapidamente. A FAO abraçou a causa, estando em um estágio avançado na elaboração de uma norma para esses produtos no CodexAlimentarius.

Hoje, mais de 37 milhões de hectares de terra são cultivados de forma orgânica (2010) e cerca de outros 31 milhões seguem suas normas em atividades como o extrativismo, a apicultura e a aquicultura . São aproximadamente 1,6 milhão de produtores cadastrados e distribuídos principalmente na Índia, com 340 mil; Uganda, com 181 mil; e México, com 129 mil.

No mundo, a venda de orgânicos alcança a cifra invejável de US$ 60 bilhões por ano. Esse valor representa um grande salto em relação a 1999, quando foi realizado o primeiro levantamento global desse mercado. Na época, ele era de 15,2 bilhões, praticamente um quarto do que é hoje. A parcela do Brasil nesse bolo ainda é pequena, alcançando modestos U$ 1 bilhão.

Mesmo assim, o país se coloca entre aqueles com maior superfície convertida ao orgânico. Os líderes são: Austrália, com 12 milhões ha cultivados; Argentina, com 4,18 milhões ha; EUA, com 1,95 milhão ha; Brasil, com 1,77 milhão ha; Espanha, com 1,46 milhão ha; China, com 1,39 milhão; e Itália, com 1,11 milhão ha.

No que diz respeito ao consumo, mesmo sendo considerado um nicho, alguns países já atingem índices de participação interessante de orgânicos, como a Dinamarca (7%), a Suíça (5%), a Áustria(6%) e a Alemanha (4%). Na Europa, a Alemanha é responsável pela importação de 50% desse tipo de alimento, ao passo em que a Espanha possui a maior superfície cultivada. É preciso dizer também que a França, o Reino Unido e a Itália também são grandes mercados. Mas é a China que desponta como o maior produtor e consumidor de orgânicos para o final da próxima década. Naquele país, produções importantes de chá e grãos – entre os quais soja – já alimentam o mercado global, apesar do ceticismo quanto à qualidade dos produtos.

Hoje também é mais fácil encontrar orgânicos à venda. As grandes redes de supermercados em todos os países já disponibilizam esses produtos para seus clientes, como Wallmart, Tesco e Carrefour, só para nomear alguns de uma longa lista. No Brasil, temos o Pão de Açúcar liderando as vendas, seguido pelo Carrefour e Wallmart. Há ainda muitas lojas especializadas e mais de 100 feiras orgânicas de rua pelo país oferecendo produtos cultivados sem o uso de agrotóxicos.

O interesse pelos orgânicos é crescente. Tanto que ocorre agora um movimento interessante na Europa e nos EUA. É a criação de redes especializadas nesses produtos, como a Basic e a Naturata, na Alemanha, e a WholeFoods e a Wild Oats, nos EUA.

Tudo isso fomenta o mercado, que tem nas feiras de negócios um importante circuito para se conhecer as novidades e produtores. No Brasil, a principal é a BioBrazil Show – Biofach – realizada em São Paulo, normalmente entre maio e julho.

No mundo, as principais feiras são: Biofach, na Alemanha – fevereiro; Expo East/Biofach, em Baltimore – setembro; Expo-West, na California – março; Sial/Anuga – França/Alemanha – setembro; FoodIngredients, na Holanda/Inglaterra, Bologna-Itália – agosto; Japão – maio; China – abril.

Os orgânicos refletem a essência do que se busca em produtos sustentáveis. “Economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto” é o que se demanda dos orgânicos desde o início. Este é o lema da IFOAM desde a sua origem. A sustentabilidade adotou este lema como ideal, embora sua primeira definição tenha surgido em 1987, com o “Relatório Brundtland” (Nosso Futuro Comum – documento elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento antes da Agenda 21), que define desenvolvimento sustentável como “suprir as necessidades da geração presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas”. Vertente importante são também os biodinâmicos de Rudolf Steiner, os Naturais de MolitiOkada e a Agroecologia, ciência que desponta sendo uma de suas principais representantes a ativista indiana Vandana Shiva, que recentemente participou do Fórum Mundial de Agroecologia em Botucatu-SP, onde falou para 3 mil pessoas.

A sustentabilidade adota o pensamento sistêmico, um paradigma que surge em vários autores relacionados à agricultura biodinâmica, orgânica e ecologia, como Rudolf Steiner e James Lovelock (criador da teoria de Gaia). Eles adotam a forma da inter-relação dos aspectos técnicos, econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade, porém, sempre remetendo ao ser humano. A estruturação da civilização e das vidas humanas, onde os diferentes setores de produção possam atender às suas necessidades de forma mais eficiente possível, deve ser feita garantindo-se a preservação da biodiversidade e dos ecossistemas naturais, mantendo as diversidades culturais e possibilitando o florescer da sociedade humana.

A questão de como se dará a expansão dos orgânicos daqui para frente dependerá da capacidade de superação do nicho para se tornar um setor da agricultura. Estatísticas revelam que os orgânicos representam cerca de 0,9% da superfície agrícola mundial. É pouco, mas pelo tamanho até que gera muito barulho.

De qualquer forma, essa continua a ser uma agricultura que, por medida de precaução, protege o ser humano dos problemas da agricultura à base de agrotóxicos.

(Alexandre Harkaly/ Mercado Ético)