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Mulheres do campo mudam forma de trabalhar pela saúde da família
29/03/2016 14:01
Mulheres do campo mudam forma de trabalhar pela saúde da família
Nelinha (Foto: Reprodução/ TV Gazeta)
Nelinha achou na agricultura orgânica caminho para estabilidade financeira. Santa Maria de Jebitá o município com maior produção orgânica do estado.


Plantar, cuidar, colher, vender. E começar tudo de novo dia após dia. Assim é a vida de Nelinha Conradt e Selene Tesch, duas agricultoras da comunidade de Alto Santa Maria, em Santa Maria do Jetibá, na região Serrana do Espirito Santo.

Essas mulheres não têm só a rotina em comum, elas fizeram uma mesma escolha: plantar, cuidar, colher e vender produtos sem nenhum tipo de veneno. Mas para chegarem até aí, percorreram caminhos difíceis e diferentes entre si. Caminhos abertos por Selene Tesch.

Há vinte e quatro anos, Selene era orientadora de jovens na igreja. Um dia ela refletiu de maneira especial em uma lição: "mata ou promove a vida".

Isso se juntou com a preocupação que a agricultora tinha com sua família. “Na época eu tinha seis filhos e vira e volta tinha alguém doente na família. Diarreia, dor de cabeça, vômito. Assim, vários tipos de doença”, contou.

Novo caminho
“Tem alguns momentos na vida da gente que temos que tomar uma decisão. Na época era uma coisa totalmente inovadora, todo mundo chamava de loucura”, relembra Selene.

Foi assim, aos poucos, que ela começou a desbravar este caminho e se tornou uma das precursoras do movimento da agricultura orgânica no estado. Em 2001, criou a Associação Amparo Familiar. No início era um grupo de nove pessoas, a maior parte da família dela.

A família foi crescendo, um foi levando para o outro a ideia de um cultivo diferente do tradicional e hoje são 90 pessoas que plantam sem nenhum tipo de agrotóxico. São 48 propriedades certificadas e mais 20 se convertendo para o sistema orgânico.

Selene e sua família cuidam de uma propriedade de 15 hectares. Metade de mata nativa, o que proporciona controle biológico das pragas.

A agricultora produz de 65 a 80 variedades por ano, colhe 1500 caixas por mês, em média. O carro chefe da propriedade é o alface, mas tem outros tipos de verduras. A maior parte da produção vai para Feiras de Vitória.

Este caminho aberto por Selene, permitiu que a cultura da região fosse alterada.

Permitiu que Nelinha também pudesse encarar esse desafio. A agricultora, que não teve vida fácil, se viu sozinha quando jovem com um bebê no colo e grávida do seu segundo filho, sem nenhuma ajuda do pai dos meninos.

Ela se desdobrava para manter a família e foi procurar o sustento fora da roça, trabalhando como funcionária pública. “No começo foi mais difícil, né?! Porque eles eram pequenos, eu tinha que batalhar mais sozinha”, relembra Nelinha.

Os meninos foram crescendo, crescendo até que veio a vontade de iniciar uma produção agrícola da própria família.

Estudantes de Escola Agrícola, eles já tinham experiência de campo do que aprendiam na sala de aula e do trabalho que faziam em outras propriedades rurais. Foram eles, Gustavo Conradt, 17 anos, e Alex Conradt, de 16 anos, que deram o empurrão necessário para Nelinha encarar essa nova empreitada. Aos poucos ela foi aprendendo o que era necessário e tomando gosto.

“Quem puxou ela mesmo foi eu e meu irmão. A gente puxou ela, literalmente, para a roça. A gente falou pra ela largar o emprego porque a gente queria trabalhar assim. Além da qualidade de vida ser melhor, a renda também é mais alta”, diz Gustavo Conradt, 17.

Com o cultivo de produtos orgânicos, eles conseguiram aumentar a renda da família em sete vezes.

Hoje eles produzem folhagens, batata, abóbora, gengibre e muito mais. Colhem cem caixas por mês, nas melhores época. E a produção desse a serra e é vendida na Feira Orgânica de Jardim Camburi em Vitória.

Selene, Nelinha e mais tantas outras mulheres que ajudam a fazer de Santa Maria de Jebitá o município com maior produção orgânica do Espírito Santo.

Saúde de todos
Mulheres que têm uma preocupação em comum: a saúde da família e das pessoas que consomem seus produtos. 22% das propriedades orgânicas certificadas do estado estão lá. É uma área de cerca de 1.000 hectares, 25% (300 ton./mês) da produção total de orgânicos capixabas.

A renda não é o melhor presente que elas ganham vivendo da produção orgânica e também incentivando esta cultura. A força que dão para o movimento - que as agricultoras dizem ser fundamental -  tem o alicerce em suas famílias.

No caso de Nelinha, por exemplo, esta mudança uniu ainda mais a agricultora e seus filhos.

Agora, diferentemente de antes, a família está junta o dia inteiro. Juntos semeiam a terra, cuidam do crescimento das plantas, colhem, vendem. Uma mão ajudando a outra.

“Além de ter criado a gente sozinho, sem o pai, ela conseguiu realizar a maioria dos nossos sonhos até agora. E está sendo uma guerreira, batalhadora, para a gente ter o melhor. Ela é um exemplo”, se orgulha o filho Gustavo.

Se depender de Nelinha, o orgulho dos filhos só vai continuar crescendo, “valeu a pena e eu vou continuar batalhando pra fazer o melhor para eles, para mim”, disse.


Fonte: G1 ES